12/10/2008

gelado #109


É só para avisar ao pessoal que aqui vem ter através do Google Reader que este blog tem um novo post.

11/10/2008

gelado #108


O suor nos corpos, as rugas a flagelarem a face: em Night and The City, de Jules Dassin, existe uma pormenorizada atenção aos detalhes da dimensão física, dos corpos e nos corpos (gajo que se queira credibilizar na escrita de cinema tem de utilizar a palavra corpos de mês a mês, no mínimo). Este hyper-realismo atinge o climax numa extraodinária cena de luta entre dois lutadores greco-romanos (estão os dois na foto) , embate de carne e músculo sem receio de mostrar todo o esforço, todo o sofrimento, e toda a resistência que existe numa bulha a sério. A baba sai da boca, os olhos contorcem-se, os ossos chocam, só resta esperar pela foice. As pancadas são secas, brutais, sem adornos espectacularizantes. A ausênca de música expande ainda mais o primitivismo da cena. Aqui não há super-homens artificiais, apenas dignidade.

gelado #107

A maior prova da ilusão do cinema é aquela que permite a alguém afirmar que determinada imagem "é muito parada". De facto, a premissa cinematográfica tarda em concretizar-se: onde estão as tão propaladas imagens em movimento? Até hoje, em data alguma ou local seguro, se registou um caso que fosse de imagens que tivessem saído da tela, atropelado o público, provocado um acidente na estrada, e que acabassem numa borracheira colectiva numa taberna ou bar. Reflectindo melhor, começo a pensar que os apregoadores da "imagem parada" começam a ter alguma pertinência no que dizem, e portanto não existe nenhuma ilusão, assim negando eu a minha frase inicial, o que é deveras lamentável, porque só alguém profundamente desequilibrado poderá contradizer-se ao fim de cinco ou seis linhas. Mais um post gasto. Next.

08/10/2008

gelado #106


O cinema está a acabar, dizem os mais optimistas. O cinema acabou, atrevem-se os trágicos. Os trágicos que me perdoem, mas eu sou dos optimistas, e por conseguinte, considero que o cinema está a caminho do fim. Tal como eu, o leitor, o John McCain que neste momento se está a rir para Obama, o Taj Mahal, ou o jaquinzinho. A última vez que comi jaquinzinho foi na Rua da Misericórdia, perto do Estádio, num modesto restaurante sem comida de autor, a blasfémia. Acompanhado de um divinal feijão preto; seguramente a melhor refeição tomada em Lisboa nos últimos dois, três anos, talvez apenas comparada aquela provada num outro estabelecimento recatado e sem fins lucrativos, onde o dono só sabe falar português e mal; foi na Rua do Arsenal (só faltava mais esta), um arrozinho branco com pastéis de bacalhau daqui (sim, estou a fazer aquele gesto com o indicador e o polegar no lóbulo orelhal). Relembro aos mais distraídos que este blogue pugna sem freio pela indulgência e pelo narcisismo cavalar. Quem se sentir perturbado ou irritado, pode ir consultar mais umas fotos do Jardim de Santo Amaro ou mais uns comoventes "Retratos de Trabalho", ou mais um emocionante "Hoje Acordei Assado", material altruísta e de dedicação ao povo. Onde eu aí? Ah sim, a Cláudia Vieira....perdão, o jaquinzinho. Está a acabar. Desde a famigerada UE ter proibido redes de pesca com buracos minúsculos, existem cada vez menos num prato ao seu dispor. E carapaus limados à algarvia igualmente . Contentem-se com espuma de limão grelhado com tofu e foie gras às três tabelas. Esta ideia de eu, burguesinho suburbano, me passar por defensor das tradições e gastronomias populares é a coisa mais ridícula que apareceu na net desde o Pedro S. Lopes aderiu à blogo-isfeira. Não tenho culpa, pois hoje numa Fnac estive a ler umas páginas de um livro do MEC sobre gastronomia portuguesa, e deu-me para a fome e para isto. Pronto, os jaquinzinhos estão-se a despedir. O Cinema também. Pela simples razão de que daqui a duzentos anos não estará aqui ninguém. Se enveredar pela ciência, posso argumentar com os cinco biliões de anos que distam para o Sol explodir e arrebentar com esta merda toda. Não haverá negativo que resista. Talvez sim, talvez o Homem, se ainda cá estiver, tenha arranjado uma engenhosa forma de se estabelecer num cu de judas universal, transportando com ele todas as coisas que nos fazem felizes, como os negativos filmicos, o bacalhau à Gomes de Sá, o Lisandro Lopez, e a erva do tabaco. Recapitulo, então, em face dos últimos desenvolvimentos e aleatórias projecções futuras: o cinema PODE não estar a acabar. Mas para alguns, ele já fechou as portas há muito. E é aí que entra Apichatpong Weerasethakul.

O senhor, tailandês de nascimento e de cidadania, tem um filme intitulado Mysterious Object At Noon. Retenho a primeira palavra, pois é ela que define, de forma simplística, todo o cinema deste enormíssimo cineasta. Os pródigos da desgraça argumentam com a estereotipização de imagens e enredos, de simbolismos repetidos até à exaustão, de estupidificação bovina, de retrocesso mental, de cedências televisivas: o cinema está mais morto que a libido de Brigitte Bardot. Por amor de Bènard, vejam os filmes deste homem. Vejam este Syndromes and a Century, um trabalho com mais suspense, imaginação e surpresas que um desses thrillers "que o fará saltar na cadeira", como anunciam nos trailers. Não sejam preconceituosos com "planos fixos" e "cenas paradas", e encarem o realizador como, para dar caução, um híbrido de Antonioni e Lynch em terras asiáticas. Uma arte da contemplação, da pausa, do real esventrado por rupturas que dividem, literalmente, filmes em dois, sem que exista fragmentação de um registo, de uma montagem. Deveria ser proibido por lei desvendar sinopses dos filmes de Apichatpong; este mundo é para se descobrir sem pré-preocupações de ordem narrativa. E com disponibilidade para se inebriar, coisa de não pouca importância. Mas será que já não conseguimos ver um filme que não nos agrida com metralhadas palavrosas? Imagem+som= parece mesmo básico.

gelado #105


É óbvio que eu com este cabelo ridículo, estes óculos sempre embaciados, e estes tennis datados já em 1993, não vou a lado nenhum.

gelado #104

O Hélder Beja escandalizou-se com um anúncio de trabalho de uma revista que eu nem pegaria com as luvas anti-radiação que comprei há escassos segundos num PLUS imaginário. A indignação e a ofensa, contudo, atingirão proporções ainda mais graves quando a mesma revista publicar dentro de algum tempo mais um anúncio, a que este blogue, em colaboração com o Professor Fofana, já teve acesso:

Meu boi, se sabes soletrar duas vogais e uma consoante, se conheces a tabuada do 1 como a planta do teu pé, se fazes do telemóvel o teu Deus, se pretendes ser explorado e humilhado tal e qual como numa praxe universitária de sonho, se conseguiste ler este conjunto de palavras (se é que és capaz de descodificar o significado da palavra "palavra"), em menos de duas horas e vinte e um minutos, então, minha estúpida arara, precisamos de ti, minha besta quadrupula. Prepara-te para privações e manipulações que farão as galés de Ben-Hur tornarem-se na Rua Sésamo. Apressa-te, bosta jingona. Metes nojo aos porcos, parasita.

- Ó Chefe, acha que isto resulta?
- Primeiro, não sou Chefe, sou Senhor. Depois, claro. Nunca subestimes, criatura ignara, a insegurança e a precaridade humanas, valores consagrados na nossa bendita economia (ai que me venho) de (ai sim) mercado (humm) livre (isto é tão bom). Além disso, há uma vertente psicológica nada despicienda a considerar, meu insectozinho: alguém se julgará possuidor de tão assaz sofisticação e descontrucção de códigos semióticos, que irá achar o nosso reclamo original e honesto, ainda por cima inserido num mundo hipócrita e falso como um Luís Amado. Por tal apreço sentimental, correrá para aqui com todo o entusiasmo de uma vida fresca. Se nada disto resultar, ainda temos os sadomasoquistas. Cappice, filho de uma masturbação mal efectuada?
- (de gatas e mãos juntas à cabeça): Sim, meu bom Senhor. Sim, meu amo. Elucidai-me sobre a gentil arte do rebaixamento da auto-estima e das expectativas. Esclarecei-me sobre os prazeres de uma vida com futuro incerto e sem nenhumas garantias. Fazei-me extasiar com as virtudes da selvajaria mercantil. Meu bom senhor, não me abandoneis neste momento de corpórea vibração (lambe a mão do Senhor).
- (suspiro). Pronto, pronto. Vamos começar pelo princípio.

06/10/2008

gelado #103


Gion no shimai inicia-se com um longo travelling por entre um frenético leilão de peças várias no interior de um edifício. Em dois minutos ficam estabelecidos, de forma simbólica, os valores da transacção humana, perdão, comercial, e do sentimento de posse que irão perspassar pelo resto do filme. Há quem não se resigne a esta condição de produto, e tente fazer da astúcia e do encanto feminino armas de ascensão (ver foto). Um mundo povoado de figuras masculinas ora corruptas, ora patéticas, quando não as duas; só se combate o sistema patriarcal com as devidas doses de oportunismo. E por entre diálogos sussurrados e uma superfície de calmaria, Mizoguchi (ao pé dele somos todos mortais, amén) construiu uma das mais violentas obras artísticas do século XX.

gelado#102

Unless my memory is playing tricks on me, I don’t believe that Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, or Carter ever used the terms “good guys” or “bad guys” in public speeches, at least not without any trace of irony. Whether this started with Reagan, the first Bush, or the second, these terms have finally become coin of the realm in the campaign speeches of both McCain and Palin, seemingly as acceptable indexes of reality. If Obama and Biden have more recently used these terms unironically as well, out of some misplaced sense of self-defensiveness, then this may rule out the possibility that I’ve been idealistically entertaining, that Obama may be the first full-fledged grownup to have run for President in several decades.

I hasten to add that calling people you want to obliterate “bad guys” is hardly the same thing as calling Hitler and/or Stalin and what they stood for “evil”. The latter is an ethical position of some kind; the former is a reference to games played (and concepts played with) by children. And not being able to tell the difference between the two–which may bear some relation to not being able to tell the difference between Mahmoud Ahmadinejad and the mullahs, or between any of the leaders deemed as “bad guys” and any of the civilians who would likely be the first to be hit by any bombs or missiles–is clearly related to a child’s desire to make contemporary warfare understandable in the same simplistic terms as Star Wars, thus helping to account for CNN logos and James Earl Jones intoning station identification. In much the same spirit, CNN’s lead-up to the first Presidential debate proudly called itself “Debate Countdown”–calling to mind that the “countdown” itself was the invention of Fritz Lang, used as a suspense device in his most childish film, Woman on the Moon. [10/5/08].

Jonathan Rosenbaum.

Em relação à imagem, veja o que se passou com um dos acontecimentos mais importantes dos últimos anos: o ataque às Torres Gémeas. Houve muita gente que viveu essa experiência pensando que estava a ver um filme. Depois, apercebeu-se de que aquilo era uma imagem que vinha da realidade. Passados 20 minutos, essa imagem já se tinha transformado numa glosa de si mesma. Já tinha voltado a ser ficção. Como aquilo era passado en boucle, em espiral, ao fim de algum tempo o impacto dramático da primeira imagem ia-se diluindo à medida que havia uma sobreinformação, um regresso do mesmo. Eduardo Lourenço, revists LER.

Abordando questões diferentes, Rosenbaum e Lourenço prestam uma justa e perversa homenagem à contaminação linguística e à percepção banalizadora da imagem. De Hollywood, obviamente. Corja de anti-americanos, pá.



gelado #101

1) Ouvir Alvalade a assobiar e insultar Lucílio Baptista é uma traição infame e insolúvel. Que se segue? Director Fernandes a achincalhar Bush? Pedro Mexia, o Subdirector, a cuspir em Bénard? Jaime Nogueira Pinto a mijar na campa do botas? Bento XVI pegar fogo à Sistina? Crise de valores e de memória. Estou preocupado.

2) Estou tão preocupado que já pondero a hipótese de obter licença de porte de arma para me defender das pessoas que possuem licença de porte de arma.

3) Gato Fedorento (2003-2005). R.I.P.

4) Nenhuma pessoa no seu perfeito juízo poderá defender Sarah Palin. Pedro Marques Lopes, eminência parda de blogues de direita, no Eixo do Mal, SIC-N. Não obstante, adoro ler os números de conturcionismo argumentativo na defesa da senhora. Um apelo à capacidade ficcional de cada um.

5) Não faço ideia.

6) O desespero: sair de casa à uma da manhã, calcorrear uma rua deserta durante duzentos metros, entrar numa tasca e encontrar a máquina do tabaco avariada. Andar mais cinquenta metros (para Oeste), entrar num café e comprar o vício. Fazer o mesmo caminho de volta, já com um cigarro acesso, e deparar com um gato morto na estrada, que há dez minutos ali não jazia. Contemplar com um nó na garganta o gato. Voltar a entrar em casa. Colocar isto online.

05/10/2008

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