07/11/2008

gelado #129

A crítica de cinema não é gestão de economia. João Lopes, na Sic Notícias.

A propósito do novo "filme" do "realizador" Leonel Vieira.

Entretanto, reparo que um conhecido crítico de cinema do Público, e também o Jorge Mourinha, atribui nota zero ao novo "filme" do "realizador" Vieira. É tempo de estes bandidos preconceituosos dedicarem mais atenção ao mercenarismo, perdão, ás artes económicas.

Um dos piores mainstreams do mundo. O pior, talvez.

O João Lopes chegou ao delicioso ponto de dizer que o "realizador" Vieira nem sequer sabia enquadrar um plano.

Prisão com eles. E levem o Benitez e o Sapunaru.

06/11/2008

gelado #128


Existem filmes, como lugares, em que o mais aconselhável é não voltar a encontrá-los. Corre-se o risco de memórias graciosas (lindo) se diluírem em parcas desilusões (lindíssimo, já posso editar pela Oficina do Livro) no momento do reencontro. An American Werewolf in London, de John Landis, povoava até há poucos dias o meu cérebro de palavras como "medo", "terror", "Sapunaru", e "choque", fruto da sua primeira, e única visão, ter ocorrido algures numa noite de Sábado de 1986 ou 1987, época em que a coisa mais assustadora que me podia acontecer era perder um episódio do Bocas. Há um par de dias regressei ao local do BPN, do crime, e refastelei-me na total indiferença perante o que via. Excepção feita à primeira sequência, na ruralidade inglesa, onde se constrói com êxito um ambiência de opostos (gajos americanos urbanos vs paisagens fantasmagóricas e misticismos locais ingleses), o resto do filme é uma salganhada de géneros (comédia, terror, filme romântico) em que nada bate certo, não havendo nem a gravidade do horror movie nem a coragem suficiente para transformar tudo aquilo em caricatura burlesca (como fez o Jackson de Braindead). Sim, sim, e depois há a metáfora das "dores de crescimento juvenil" (numa cena que continua sem rugas, ao fim de vinte e sete anos): alguém sempre pode pegar por aí, para lhe atribuir "complexidade". Há crónicas jornaleiras e blogs neo-liberais que me assustam muito mais. E lá vão vinte anos de memórias afectivas (a sério: só preciso de fazer um qualificado broche ao editor) para o galheto.

05/11/2008

gelado #127


Há nuvens lá fora. É tempo de aclarar. Até amanhã.

04/11/2008

gelado #126


Uma puta e um padre.

Michel Piccoli abre a sua bíblia; grande plano da bíblia com formigas nas suas páginas (blasfémia alert!); raccord: grande plano de uma caixa de jóias a ser aberta. E em meia dúzia de segundos e num par de planos fica estabelecida a dualidade eterna do ser humano, entre o sagrado e o profano, a compaixão e o egoísmo, a alma e o corpo, a humildade e o Miguel Cadilhe. Um raccord que resume, de forma económica e sem paliativos, a divisão em duas partes de La Mort en ce jardin, uma em que cada um tenta obter o melhor para si na civilização, onde o cinismo dita lei (Simone Signoret, estátua para ela), e outra em que, reduzidas as máscaras quotidianas e aumentados os mais básicos instintos de sobrevivência, se constrói uma entreajuda salvadora (?) numa luxuriante floresta tropical. Charles Vardel, encostado a um tronco, tenta acender um cigarro, mas a chuva não lho permite: não há hipóteses de acessórios burgueses quando o que importa é ter comida na boca. Só numa filmografia como a de Buñuel é que La Mort en ce jardin pode passar por quase nota de rodapé.

27/10/2008

gelado #125


Eu bem a tento reprimir, mas a minha costela fascista sedenta de sangue emerge à tona algumas vezes, as suficientes para não fazer mal a uma mosca (mas não a um caranguejo, e tenciono aqui voltar ainda este ano). Ontem foi uma delas, quando vi John Rambo pegar nesse dispositivo militar do qual desconheço o nome. O que se seguiu foram dez minutos de transe em mode mata-me esses cabrões todos!, impulsionado por uma brutalidade e uma raiva (emocional, de montagem) que envia direitinho para o caixote do lixo objectos "realistas" e "chocantes" como o inenarrável Black Hawk Down. Tripas, cabeças pelos ares, um bombardeamento audiovisual de planos curtíssimos, onde se destacam aqueles, fechados, de Rambo e os sons de trovão da sua máquina, escangalhando com tudo o que lhe apareça à frente. Numa era de hiper-hiper-realismos do corpo, ainda há quem me consiga impressionar. Além disso, foi uma sequência que terminou com os bocejos da hora anterior, que me levaram a ter saudades da deliciosa panache involuntariamente burlesca da obra-prima Rambo III. Nevertheless, recomendo aos mais devotos fãs.

gelado #124

1) Nesta nossa época conturbada a todos os níveis, onde Karl Marx voltou a ser um herói, e em que eu tive de cortar a despesa com as azeitonas à mesa, cabe fazer uma pergunta essencial: porque é que na tv, sempre que se discorre sobre taxas de juro, desemprego, crédito à habitação ou crise financeira, o background visual é geralmente a Rua Augusta, e residualmente a passadeira da morte no Terreiro do Paço? Se no segundo caso há uma dimensão metafórica compreensível, no primeiro existe uma insistência numa imagem que carece de compreensão. Ou as Avenidas do Porto, Coimbra, Braga e Aliados do Lordelo não são dignas de também figurarem como suporte de assuntos degradantes? Um exemplo, entre outros, de um bafiento centralismo que teima em perdurar. Mas será que ninguém reflecte sobre isto? Tenho de ser eu? Não há cidadania suficiente neste país.

2) Uma das ideias que os defensores do negócio futebol nos tentam vender assiduamente é aquela que diz respeito a árbitros e dirigentes desportivos se tornarem invisíveis, para assim darem total primazia aos verdadeiros artistas do espectáculo, que segundo eles são os treinadores e jogadores. Aos treinadores ainda dou um desconto, pois por entre banalidades e catch frases o saldo anda sempre equilibrado. Quanto aos jogadores, pode-se escrever que há ratos de esgoto que conseguem expressar guinchos mais interessantes do que a maioria deles. É que são anos e anos a levar com "temos de levantar a cabeça", "pensar no próximo jogo", "vou trabalhar para merecer a confiança do mister", "O Benfica é o maior do mundo", " vamos dar a volta", "vamos entrar com tudo", " o adversário fez o primeiro golo na primeira vez que foi à nossa baliza", etc, etc. Como é que diminuídos mentais, cujas únicas coisas que sabem fazer é pontapear ou adornar a bola, jogar playstation e ás cartas, ver dvds contrafaccionados e pagar as mordomias das esposas, podem ser a cara de um desporto nobre? Podem, se pensarmos na imprensa desportiva. O discurso repleto de gíria futebolística, de frases repetidas até à exaustão e de perguntas eternas levou a que quem assista uma flash-interview ou uma conferência de imprensa não precise de ver outra, pois é sempre o mesmo filme a rolar através dos tempos. A primeira coisa que um extraterrestre aprenderia seria com certeza a linguagem codificada entre jornalistas desportivos e futebolistas. É um nó impossível de ser desatado, e é claro que para o florescimento do negócio e da imagem, torna-se imprescindível que nada de relevante e perigoso seja proferido nesses momentos de confrontação. "Estou aqui para ajudar a equipa".

26/10/2008

gelado #123


A mother nature, no cinema, poderá ter outra função além de ser um mero adereço de décor, capitalizado em planos tã lindos e tão relevantes como os cantos gregorianos de supermercado, que nos estão prestes a massacrar, agora que se aproxima o espiritual passa pa cá o dinheiro Natal; Malick, Dovzhenko, Sjostrom serão os nomes maiores da apropriação da natureza como personagem, tão ou mais importante do que as de carne e osso. Em Shara, de Naomi Kawase, cineasta japonesa sem lastro comercial no nosso extraodinário país, sucedem-se os planos de flores, plantas e árvores, e também de flores, plantas e árvores, imagens criadas que tornam ainda mais oblíqua uma narrativa onde prolifera a interioridade doméstica e a surdina. A câmara móvel segue os actores por entre canteiros e emaranhados de ramos num subúrbio japonês, intensificando os labirintos mentais que corroem a personagem principal. O momento da catarse, que ocorrerá num magnífico espectáculo dançarino ao ar livre, terá a chuva como elemento primordial, uma bátega esmagadora que abafará todos os restantes sons em volta. Foi para momentos como este que o Senhor Pai criou todas as coisas, inclusive a câmara de filmar.

gelado #122

Para o exterior, a imagem do cinema português tem um nome: Oliveira. É o paradigma pelo qual todos os outros filmes irão ser avaliados, desculpem lá a generalização. Poderia juntar-lhe o Pedro Costa, mas ainda lhe falta a institucionalização internacional, da qual eu espero que escape. A imagem do país, então, ainda deve andar muito pela Maria do bigode a puxar o burro e pelo Joaquim bêbado a malhar na Maria e no burro. E pela pobreza, pela tristeza, e pela saudade, e pelo terço na mãozinha; ideias feitas que serão sumariamente desmentidas quando o leitor turista se deslocar à 24 de Julho, onde terá oportunidade de se deslumbrar com trintões de fitness perfeita encostados às paredes da discoteca enquanto miram a estonteante alegria e as supimpas peidas do pitedo aos saltos, que dançam ao mesmo tempo que escrevem sms's; eu não sei nada disto, apenas me contaram, que eu sou um homem de família. Quando Noite Escura estreou em França, os Cahiers não gostaram. A Positif não gostou. As publicações de prestígio desprezaram. O quê? Sexo, uma câmara em movimento, José Raposo a comer salsicha à mão, diálogos nada eruditos e ainda por cima sobrepondo-se uns aos outros? O quê? Rejeitaram a afronta à instituição cinema português. Por outro lado, publicações mais mainstream (Studio, Ciné-Live) elogiaram o filme de Canijo, moderadamente, mas elogiaram; apreciaram o desvio à instituição. No ípsilon de ontem, leio que a Hollywood Reporter classificou Entre os Dedos, de Tiago Guedes e Frederico Serra, como um fervoroso exemplo de neo-realismo português; ignorando qual a estética do filme (além do preto-e-branco), levanto a hipótese da revista em questão ter feito tal comentário por ver confirmados os seus preconceitos sobre o nosso extraodinário país. Penso que esta ambivalência forma e conteúdo é importante no modo como os outros olham para os filmes de determinado país, ainda por cima de um que seja periférico. O mainstream português não vai a lado nenhum, e não é só por ser um dos piores do mundo, embora isso seja forte razão a ter em conta; é que os lá de fora consideram as mamas da Soraia e os assaltos do Fragata uma anulação do que eles julgam ser a verdadeira identidade portuguesa, tanto sociológica como cinematográfica. É compreensível. Eu também ficaria baralhado se me deparasse com um filme iraniano em que as personagens principais fossem naves espaciais.

gelado #121

Eu tinha qualquer coisa para escrever sobre o FC Porto, mas...entretanto esqueci-me.



Ah sim, já me lembro: (censurado pelo provedor).

22/10/2008

gelado #120


Estava prestes a iniciar uma breve crónica que envolvia o Mariano Gonzalez e um martelo pneumático, quando vejo que no canal 1 começa o Goodfellas (neste momento o Franciú está no bar a apresentar o plano do assalto a De Niro e a Liotta). Sobre o filme, não tenho mais nada a acrescentar ao que já foi escrito e dito ao longo de dezoito anos em milhões e milhões de letras e verbalismos. Claro que uma obra poderá ser sempre reavaliada ao longo dos tempos, em variação de contextos, mas este post não tem nada a ver com isso. Tem a ver com a pedagogia de Goodfellas, demonstrada nesse fotograma. Foram precisos alguns anos de gradual aperfeiçoamento, mas estou em condições de divulgar que, hoje em dia, o cortar de alho da minha pessoa segue ao milímetro a sábia técnica de Paulie. Requer paciência, nervos de alumínio, e um notável domínio da força da técnica sobre a técnica da força, mas a recompensa de tanto árduo labor terá uma bela recompensa, da qual eu estarei prestes a descobrir. Obrigado, Paulie, e que se fodam os Adriàs desta vida. Numa sala recheada com apenas uma mesa de vidro, Mariano Gonzalez encontrava-se vendado, amordaçado, e com as mãos e pés amarrados. Em cima da mesa encontrava-se um martelo pneumático...
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