15/11/2008

gelado #136


É legítimo detestar um filme como Hundstage, do austríaco Ulrich Seidl: auto-indulgente, prazer no sofrimento alheio, visão maniqueísta da realidade, sensacionalista, you name it; e eu exulto, e escrevo que qualquer obra que satisfaça o meu voyeurismo desenfreado é digna de uma dezena de polegares para cima. Seidl, que parece confirmar a ideia de Michael Haneke de que o seu país sofre de qualquer malaise colectiva, filma um grupo de pessoas, quase todas de classe média/alta, emaranhado num belíssimo catálogo de horrores, desde velas enfiadas no cu enquanto se entoa La Cucaracha até a uma depilação da pintelheira vaginal em grande plano, uma tragédia moral para os leitores mais tradicionalistas do Público. O realizador mostra tudo aquilo que fica de fora de novelas e da maioria do cinema, isto é, os momentos mais embaraçosos e mais secretos da vida de cada pessoa, a frio e sem anestesia prévia, fazendo-os durar o tempo suficiente até se tornarem desconfortáveis, sem julgamentos moralistas a escalarem a superfície. As cores quentes da fotografia realçam ainda mais as rugas, o suor e, porque não, a fealdade física dos protagonistas, quase todos parecendo mais velhos do que que a sua idade aparenta. O décor suburbano parece retirado de Edward Scissorhands, mas é num gajo como Todd Solondz (nem por acaso: a Paris Hilton vai entrar no seu próximo filme) que Hundstage mais faz lembrar, embora em doses ainda mais cruéis. Há por lá um strip-tease que pede meças a qualquer Eunice Munõz. Um espanto.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

12/11/2008

gelado #135


A Screwball Comedy nunca foi a minha chávena de chá; a primeira visão de His Girl Friday traumatizou-me tanto com as suas metralhadas retóricas que eu tive tentado a enviar um e-mail à Laura Mulvey ( em 1998 eu não conhecia a Laura nem possuía Internet, mas eu sou um fiel depositário da lenda Fordiana) para uma ajuda e iniciação ao cinematográfico mundo da guerra dos sexos, ou o caralho ca foda (gratuito como eu gosto). Foram precisos mais alguns anos para eu lentamente me começar a reconciliar com o "género", tudo graças às boas mãos de Costa e seus padrinhos Straub/Huillet. É preciso escrever, com toda a clareza, que eu sinto-me muito mais na presença de um filme quando estou a ver uma screwball do que quando Eisenstein ou Vertov me estão a chamuscar os olhos com os seus blocos de granito a embaterem uns nos outros; segundo cálculos esfectuados há menos de vinte segundos, há outra pessoa residente nas Ilhas Antígua que sente o mesmo. Me and My Gal, do grande Raoul Walsh, vai distribuindo Mcguffins atrás de Mcguffins (gangsters, breves pinceladas sobre a crise pós-Grande Depressão, Lei Seca, tudo muito gentil) para criar o contexto certo para o que verdadeiramente importa: a relação abrasadora e cómica entre Spencer Tracy e Marion pastilha elástica Burns, a estourar de piscadelhas de olho e de tácticas de guerra avanço/recuo, avanço/recuo. O costume. Rola o filme e eu alheado, eu alheado e rola o filme. Há uma notável festa de noivado, em registo quase documental, com os actores a olharem para a câmara, talvez indiciando outras latitudes no interior do filme, mas é apenas um momento alienígena na supremacia da técnica invisível. Segue a festa sem o festim das surpresas. Meu rico Walsh de High Sierra e White Heat. Gente respeitável como Manny Farber e Rosenbaum consideram esta a obra-prima de Raoul. É natural: eu uma vez também me atirei, com toda a força, para uma cama, ali na Conforama do Cascais Shopping, e isto já não entra no campo da mitologia.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #134


Sporting-Leixões: após o árbitro (barbudo) não ter, escandalosamente, sancionado logo aos três minutos de jogo o defesa-esquerdo da equipa de Matosinhos com um cartão vermelho por este ter soprado na cara de João Moutinho, que de imediato caiu inanimado no gramado, equipa técnica, directiva e adeptos do clube leonino largaram o monóculo e a caixa de rapé para se entregarem ao dever de intimidar, com gentileza, o árbitro (barbudo). Depois de retomado, o jogo seria interrompido aos quinze minutos, quando os pupilos de José Mota ficaram reduzidos a apenas quatro unidades, contando com o próprio Mota. O clube de Alvalade vencia por seis a zero. No final do encontro, os sócios leoninos, de novo na posse dos seus utensílios de classe, regozijaram-se-se com o regresso da verdade desportiva e o fim de roubalheiras (sic) de vinte anos. Na conferência de imprensa, Paulo Bento, empunhando uma pistola na direcção dos jornalistas, afirmou que isto era apenas o princípio. Quem, a partir de agora, vier com veleidades de maltratar o Zbording na sua própria casa, fica já a saber que todo o sofrimento e tormentos numa pintura de Bosch serão meros laxantes ao pé do que lhe vamos fazer. Depois digam que eu não os avisei.

11/11/2008

gelado #133


This confusion between simple description and moral accounting, between making art and finding ultimate truth with a camera, a microphone and an editing machine, is an old story in filmmaking and criticism, but it continues to be told, again and again. At this point, I have to wonder why. The appeal of systematic rather than case-by-case exploration is obviously great, as great as the lure of enlightenment in the realm of art and outside of organised religion. However, I find it troubling to read rejections of religious and political dogma from critics who simultaneously espouse aesthetic dogma. I have a feeling that serious film criticism is afraid to hoist up the anchor of moral essentialism for fear of drifting off into the shallow waters of connoisseurship. I suppose that moral essentialism offers a guarantee of seriousness.


gelado #132

Sou capaz de viver com uma preguiça quase permanente. Tenho a qualidade de ser capaz de estar, sem fazer nada, a fumar e a beber café, a ler um livro antigo que me apetece reler. Dinis Machado.

Um verdadeiro insulto à "competitividade" e ao árduo trabalho de pessoas que, com intensas chamas de orgulho nos olhos, afirmam eu já trabalho desde os dez anos, moinante!.

PS- O "realizador" Vieira, passados cinco dias, continua foragido. Com os meus impostos não brincam mais.

10/11/2008

gelado #131


Estas pequenas câmaras, uma maravilha. Agnès Varda.

Com uma curiosidade de puta (MEC dixit) e uma câmara digital na mão (pormaior que será relevante na própria narrativa) Agnès Varda infiltrou-se docemente no mundo dos respigadores à escala francesa, sejam os urbanos com os imaculados bifes e alfaces desenterrados do lixo sejam os rurais, aproveitando estes os despojos das grandes superfícies e dos grandes senhores das terras, em forma de batatas gigantes, figos apetitosos ou uvas primorosas. Em Les Glaneurs et la glaneuse, a crítica à lei do desperdício e à sociedade do "mercado livre" está tão estampada quanto possível para quem a quiser notar, mas suficientemente esbatida na leveza com que se contam estas pequenas histórias, tenham o seu quê de trágico ou de picaresco, quando não ambas. E deliciada com o seu novo brinquedo, Agnès utiliza-o para uma outra forma de respigamento (?), filmando aqueles momentos que ou não são registados nos outros filmes ou se o são, então a sala de montagem irá dar-lhes o devido uso: lixo; à falta de mais imaginação e menos preguiça mental, poder-se-ão designar pelos originalíssimos "pequenos-nadas". Uma inesperada inter-relação com a "trama maior", nunca permitindo que o filme descaia para o mero exercício rotineiro de recolher depoimentos e respectivos comentários aos depoimentos prestados antes dos comentários sobre os depoimentos efectuados. Não só vou passar a bater palmas mentais quando vir alguém a remexer na lixeira, como provavelmente estará na hora de eu fazer o mesmo, pois nunca se sabe que costeleta ou robalo tragável poderá lá estar. E, bem, é sempre mais saudável que ver o CSI, observar uma disputa de bola entre o M. Gonzalez e o Rochemback, ou gastar o balúrdio de cinco euros para ver o novo "filme" do "realizador" Vieira (que continua a monte).

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

08/11/2008

gelado #130


Para Deus não há zero!

The Incredible Shrinking Man, que poderia não ser mais do que uma patuscada agradável, um saboroso guilty-pleasure dos trezentos, transforma-se numa reflexão filosófica e metafísica (sem tese, foda-se) sobre o lugar do Homem na sociedade, e a sua relação com a escala do mundo feita à sua medida (de grandeza). E onde também fica exposto o terror da perda de masculinidade, um complexo de inferioridade face à mulher carregado de ironia, se pensarmos que estamos em plenos anos cinquenta, época do all-american house, com as familiares regras hierárquicas bem definidas e o jardinzinho impecavelmente tratado. Os efeitos especiais evidenciam artesanato por todos os poros, mas nunca tombam para a cheapiness absoluta, até porque o que mais interessa a Jack Arnold é o enquadramento do seu herói na composição do plano. O monólogo final, com um picado significativo, é tão comovente que tive de me certificar a 100% de que não se encontrava mais ninguém por perto. Somos ' tão piquenos.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

07/11/2008

gelado #129

A crítica de cinema não é gestão de economia. João Lopes, na Sic Notícias.

A propósito do novo "filme" do "realizador" Leonel Vieira.

Entretanto, reparo que um conhecido crítico de cinema do Público, e também o Jorge Mourinha, atribui nota zero ao novo "filme" do "realizador" Vieira. É tempo de estes bandidos preconceituosos dedicarem mais atenção ao mercenarismo, perdão, ás artes económicas.

Um dos piores mainstreams do mundo. O pior, talvez.

O João Lopes chegou ao delicioso ponto de dizer que o "realizador" Vieira nem sequer sabia enquadrar um plano.

Prisão com eles. E levem o Benitez e o Sapunaru.

06/11/2008

gelado #128


Existem filmes, como lugares, em que o mais aconselhável é não voltar a encontrá-los. Corre-se o risco de memórias graciosas (lindo) se diluírem em parcas desilusões (lindíssimo, já posso editar pela Oficina do Livro) no momento do reencontro. An American Werewolf in London, de John Landis, povoava até há poucos dias o meu cérebro de palavras como "medo", "terror", "Sapunaru", e "choque", fruto da sua primeira, e única visão, ter ocorrido algures numa noite de Sábado de 1986 ou 1987, época em que a coisa mais assustadora que me podia acontecer era perder um episódio do Bocas. Há um par de dias regressei ao local do BPN, do crime, e refastelei-me na total indiferença perante o que via. Excepção feita à primeira sequência, na ruralidade inglesa, onde se constrói com êxito um ambiência de opostos (gajos americanos urbanos vs paisagens fantasmagóricas e misticismos locais ingleses), o resto do filme é uma salganhada de géneros (comédia, terror, filme romântico) em que nada bate certo, não havendo nem a gravidade do horror movie nem a coragem suficiente para transformar tudo aquilo em caricatura burlesca (como fez o Jackson de Braindead). Sim, sim, e depois há a metáfora das "dores de crescimento juvenil" (numa cena que continua sem rugas, ao fim de vinte e sete anos): alguém sempre pode pegar por aí, para lhe atribuir "complexidade". Há crónicas jornaleiras e blogs neo-liberais que me assustam muito mais. E lá vão vinte anos de memórias afectivas (a sério: só preciso de fazer um qualificado broche ao editor) para o galheto.

05/11/2008

gelado #127


Há nuvens lá fora. É tempo de aclarar. Até amanhã.
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