26/11/2008

gelado #146


Entretanto

Parece que os badochas assados ficaram chocados com a ausência de filmes ingleses no palmarés. E dão como exemplo desta ignomínia os brutais esquecimentos de David Lean, Peter Greenaway e Ken Loach. E porque não Mike Leigh? Lindsay Anderson? Peter Watkins? Valha a verdade, eu também me sinto enxovalhado, a dois níveis:

1) Os especialistas franceses não se terem lembrado de um obscuro nome do cinema mundial, autor de imensos filmes underground e muito pouco reconhecido a nível global: Michael Powell.

2) Os próprios badochas não terem mencionado na sua listinha indignatória o nome do Criador acima citado. É que Powell está para Lean como a Maria de Lurdes Modesto está para esses paneleirozitos da espuma e do chic-chic.

gelado #145

gelado #144

1) Humor labrego, vindo directamente de quem nunca parece ter saído de um tempo (finais dos anos 80, inícios de 90- Streetfighter, gravar com dois vídeos e para isso é preciso ter cabo) e de um espaço (Coimbra? Algures lá perto), repleto de quebras de ritmo anti-audiovisuais que, voluntária ou involuntariamente concretizados, fariam a delícia de Tony Kaufman, e com a devida cereja no topo do bolo: não há ganchos políticos para ninguém. Alguma brisa neste humor lusitano cada vez mais preso à "intervenção" e ao diabo que os carregue a todos.

2) Por falar em marasmo político: numa altura em que a luta de ideologias parece estar a recrudescer, gostaria também de dar a minha opinião civil sobre esta questão: acho que os decotes e as mini-saias das moças das madrugadas da SIC são mais apelativas do que as das suas colegas da TVI.

25/11/2008

gelado #143

Put your hand in my heart, Allen John.

Na Grandiosa História do Cinema e também dos filmes, The River deveria ocupar um lugar cimeiro, possivelmente entre o 12º e o 54º; na não menos rica Grandiosa História do Cinema de Tusa, então, o primeiro lugar não será escandaloso de lhe atribuir, e sim, estou a incluir o Saló nesta imaginária contagem. Toda a cena a que esse fotograma pertence é um primor de sensual erotismo, tão boa que mesmo em pleno Inverno recomenda-se a sua visão acompanhada de um balde cheio de água gelada bem ao lado do pervertido leitor, e já que estou numa de frutuosos conselhos, também lhe digo, cara leitora semi-nua, que estes breve minutos vão fazer mais por si e pela sua triste relação com o seu amante/esposo/chulo do que todas as dicas hottie perpetradas pela merda da Happy. Frank Borzage, um homem romântico, realizou uma história de iniciação sexual e amorosa envolta em terreno panteísta, um decor de beleza irreal onde a crueldade (feminina, neste caso) e a repressão de sentimentos são uma resposta perfeita às mui lindas paisagens (todas de estúdio). Um corvo serve como espantoso símbolo de vigia, com Borzage a incidir sobre ele alguns planos que mais parecem saídos da escola dos surrealistas. Aliás, não parece existir um único plano desaproveitado, nenhum que não encerre em si toda uma importância singular, embora importante para o todo (não sei muito bem como explicar isto, mas parece-me que assim está bem, embora também possa estar mal. Ou assim-assim. Quê? Já vou.) desta completa obra-prima mesmo que incompleta e semi-destruída, pois o início, uma parte do meio e o fim estão perdidos algures, substituídos por fotogramas e inter-títulos que elucidam a narrativa, um procedimento explicativo que ainda consegue encharcar de maior lirismo e mistério uma obra, sem dúvida, poética, sem fazer poesiazinha de cosmética. Rosseau e Fiodor chorariam, disso não tenho eu a mais pequena certeza.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #142


A

23/11/2008

gelado #140


Perdido entre esbatidas tonalidades verde-tropa, entre rigidez gestual e retórica, entre a frieza maquinal de uma sociedade sem nome, um momento sublime de calor: a preparação de uma refeição canina. Nada mais do que isso e tudo o mais do que isso, e a reconfirmação de que basta colocarem uns planos de pormenor de comida e mãos na comida num filme para eu lhe perdoar todas as falibilidades, indigências e demais Sapunarices. O realizador japonês Mamoru Oshii, conhecido para lá dos Himalaias por Ghost in the Shell, filme de culto para a era da nerdolândia, abandonou a animação mas não o fascínio pelas intersecções invisíveis entre realidade e virtualidade, até um tal ponto que no fim de Avalon o espectador vê-se obrigado a repetir a mesma pergunta efectuada no último plano de eXistenZ. Até lá, há a registar a coerência de um tom, sempre na corda bomba entre o sonâmbulo e o misticismo new wave, puxado pela alavanca da música etérea de Kenji Kawai. Não irrita nem deslumbra, volta a pisar terreno conhecido, a procura de Humanidade num mundo hostil e repleto de zombies metropolianos, mas chega e sobra para valer cerca de 104,4 Matrixs, como a minha insuspeita balança acaba de confirmar. E tem uns belíssimos lombos de porco.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

21/11/2008

gelado #139

Estoril Film Festival. Liverpool, de Lisandro Alonso. Sem pontuação.

Eu sento-me e o Miguel Gomes aparece e aparece o João Pedro Rodrigues e o Botelho e um gajo dos Morangos com Açucar e mais uma actriz conhecida da qual eu não me lembro do nome e que no final apesar de ser portuguesa fez uma pergunta em espanhol e voltando ao princípio o Miguel Gomes e o Lisandro Alonso vão lá para baixo e o Gomes apresenta o filme e diz que o Lisandro é um dos maiores realizadores do mundo e diz que o filme é bom e o Alonso pega no micro e diz que o Miguel Gomes também é um dos maiores realizadores do mundo assim como o João Pedro Rodrigues que estará algures na plateia e sorriem todos e as luzes apagam-se e começa um genérico em letras vermelhas e rockalhada agreste e eu penso já vi isto em qualquer lado e vou vendo o filme e penso que o Lisandro abandonou as filmagens e meteu por lá o realizador automático programado com a tarefa fazer exactamente a mesma coisa do que nos três primeiros e extraodinários sei eu filmes mas desta vez em pior e o filme acaba e o público bate palmas eu não e as luzes acendem-se e volta o Lisandro barbudo e crístico lá para baixo acompanhado por imagine-se quem o Tendinha e só há três perguntas a primeira de uma mulher chilena que diz que o filme basicamente não vale um chavo e o Alonso responde e diz que a opinião dela é válida e o Botelho senta-se a dois lugares de mim e resmunga alarvidades e eu é que sou um conas senão perguntava-lhe umas certas coisas mais íntimas e uma gaja toda boa vai filmando o Lisandro e por arrasto o Tendinha e o Lisandro diz que não tem jeito para filmes porno e que se lixe a Disneylandia e vai-se embora com cara de poucos amigos e o Botelho dá uma palmadinha nas costas do Tendinha e ai que alívio ar livre e tabaco na boca e o Botelho agora volto atrás a dizer entre dentes este festival é um nojo.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

17/11/2008

gelado #138


Na última sequência de The Cool World, alguém muito importante no filme é colocado dentro de um carro da polícia, mas Shirley Clarke parece estar mais interessada em captar a "respiração" urbana e as relações sociais entre os habitantes do Harlem do que em seguir o veículo da autoridade. Fecha-se o arco numa obra que começa como documental e termina como tal, com o seu núcleo sempre numa jigajoga algumas vezes indistinguível entre os dois géneros, em que uma elegia por um amigo morto é acompanhada por "planos consecutivos" (como há dias ouvi num bar) da rotinazinha do pessoal daquela zona de Nova Iorque. Filme político, sim senhor, socialmente activo, sim senhor, mas onde a ladainha do "ai não temos hipóteses porque vivemos em guetos" não é, de maneira nenhuma, servida apologeticamente contra o criminoso branco, até porque o determinismo é desmentido por outras personagens de The Cool World. Na mesma realidade, há quem escolha mais alguma cousa do que passar o tempo inteiro a desesperar por cinquenta dólares para uma pistola. Frederick Wiseman produziu esta obra filmada brutalmente ( jump cuts, zooms, imagens fragmentadas), bem de acordo com o objecto de filmagem. À atenção de pessoas inteligentes e também de membros do PNR.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #137

You see, according to Cocteau's plan I'm the enemy, 'cause I like to think; I like to read. I'm into freedom of speech and freedom of choice. I'm the kind of guy likes to sit in a greasy spoon and wonder - "Gee, should I have the T-bone steak or the jumbo rack of barbecued ribs with the side order of gravy fries?" I WANT high cholesterol. I wanna eat bacon and butter and BUCKETS of cheese, okay? I want to smoke a Cuban cigar the size of Cincinnati in the non-smoking section. I want to run through the streets naked with green Jell-o all over my body reading Playboy magazine. Why? Because I suddenly might feel the need to, okay, pal? I've SEEN the future. Do you know what it is? It's a 47-year-old virgin sitting around in his beige pajamas, drinking a banana-broccoli shake, singing "I'm an Oscar Meyer Wiener".

Demolidor Denis Leary, em Demolition Man. Aos cuidados da bomb...nutricionista Isabel do Carmo e de toda a pandilha da "saúde".
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