20/12/2008

gelado #166


A personagem de 2008 mais recomendável para se fechar durante um mês e vinte e duas horas numa cave bolorenta, sem ventilação, sem luz, e generosamente povoada de infiltrações aquáticas.

gelado #165

OS DEZ MELHORES FILMES DE 1968

1- PLAYTIME, Jacques Tati
2- UN SOIR...UN TRAIN..., André Delvaux
3- THE BIG MOUTH, Jerry Lewis

JCM, in O Tempo e o Modo, Janeiro de 1969.

17/12/2008

gelado #164


Teria o maior prazer em escrever quaisquer palavras significativas sobre Ovoce stromu rajských jíme, aka The Fruit of Paradis, de Vera Chytilová, se por acaso três pequenos pormenores não se entrelaçassem uns nos outros, a saber, por ordem numérica: 1) eu estar cheio de sono e mesmo assim não conseguir dormir, o que me deixa deveras frustrado, e os homens do lixo acabam de fazer uma zucrineira ali em baixo, ali sendo uma estrada; 2) eu estar com uma geral má vontade contra o leitor, que enquanto neste momento empasta o seu corpo contra as calorias do parceiro, eu estou ás cinco da manhã a tentar encontrar as letras no teclado que formem palavras compreensivas e que me ajudem a elaborar a mais modorrenta e preguiçosa análise de um filme checoslovaco de 1970; isto, sim, é amor ao cinema, ou então quer dizer uma outra coisa da qual eu nem quero sentir a mais leve sombra; 3) eu não ter percebido (quase) a ponta de um corno fisgado do filme de Vera. Tal não seria muito preocupante, se antes de o ver não tivesse lido uma quantidade apreciável de artigos sobre o mesmo, onde fui introduzido ao bizarro mundo libertário, experimental, iconoclasta e anti-establishment (seja ele cinematográfico ou social) da dona Vera. Benção para a sua coragem, por ter realizado uma obra que levou o governo-fantoche dos camaradas checoslovacos da altura a banirem a cineasta de qualquer actividade (a propósito, leiam isto: tenebroso), mas essa coragem e força das convicções deveriam vir acompanhadas de um aviso no genérico: a consumir em conjunto com substâncias psicotr
(estou a fumar. já volto)
ópricas. A história em meia dúzia de palavras: Adão, Eva, Jardim do Eden, o Diabo, a tentação. E um esforço titânico de Chytilová em tornar a mais antiga fábula do mundo numa granada contra as convenções de uma real sociedade castradora e beata, o seu regime. Personagens anti-naturalistas, ausência da almofadinha psicológica, psicadelismo animado, sobreposições sobre sobreposições de cor, uma montagem feita de disrupções que tiram a papinha amassada da boquinha alarve do espectador, isto é, da minha. Isto no papel ou no no monitor parece uma óptima ideia (e os primeiros dez minutos até são magníficos, actores dissolvidos em abundante cor e música luminosa), e é aqui que surge a velha máxima: não interessa o que se filma, mas como. Peço desculpa, dona Vera, que ainda está viva, por não ter aderido emocionalmente, nem cerebralmente, nem simpaticamente com esta que para alguns é uma das obras-primas do cinema de leste que despontou nos idos de sessenta, setenta. Não há nada a fazer, o que é uma tremenda mentira, pois sempre a posso rever, já apetrechado dos necessários condimentos. Vá trabalhar, leitor.

gelado #163

Chromatics, Night Drive
Glass Candy, B/E/A/T/B/O/X
Why?, Alopecia
Beach House, Devotion
Evangelicals, The Evening Descends
Cut Copy, In Ghost Colours
MGMT, Oracular Spectacular
Ruby Suns, Sea Lion
Ricardo Villalobos, Vasco
These New Puritans, Beat Pyramid
Lindstrom, Where You Go I Go Too
Tv On The Radio, Dear Science
Hercules and Love Affair, Hercules and Love Affair
Mark Kozelek/Sun Kill Moon, April
Fuck Bottons, Street Horrsing
M83, Saturdays=Youth
Jucifer, L' Autrichienne
Kelley Polar, I Need You To Hold On While The Sky Is Falling
Atlas Sound, Led The Blind Lead Those Who Can See but Cannot Feel
Britney Spears, Circus

Vinte disquinhos de 2008, todos, sem excepção, devidamente sacados da net.

13/12/2008

gelado #162


It's a hard world for little things.

Por sinal de profundo respeito pelo filme e em particular pela sequência a que esse fotograma alude, o mínimo que posso fazer é escrever este post de joelhos, posição em que não me encontro desde aquela vez em que para me possibilitar passar para o 8º ano o professor de Matemática pediu com elegância que eu...Bom, encosto para o lado este lixo nojento e perverso que faria desfalecer o reverendo Harry Powell, servo do Senhor que hoje em dia teria uma enorme trabalheira para purificar este mundo repleto de curly hairs e Perfume-smelling things, mini saias, tops decotados, bikinis reduzidos, e demais demonstracções de desagravo ao Senhor, uma autêntica pouca vergonha. Agora que me ajoelhei, já posso escrever desconfortavelmente sobre etéreos e expressionistas planos de sapos, tartarugas, coelhos, teias de aranha e plantas ao vento, a natureza na sua plácida e bela indiferença para com a perseguição eterna do Mal ao Bem. Onde é que Charles Laughton (e Stanley Courtez) tinha a cabeça para, em plena época clássica, ter tido a ousadia de suspender encantadoramente a progressão dramática? E o assombro infantil daquele Pretty Fly é coisa para se esquecer lá para o ano 3456, altura em que os meus ossos serão desenterrados para servirem de carne para canhão a frutuosas experiências cientificas, mormente o de saber porque é que os humanos naquela altura, ou seja, actualmente, ainda possuíam ossos. Sim, é difícil escapar aos clichés de bonitos adjectivos quando se fala ou escreve sobre a River Boat Scene, e eu tou a experienciar dificuldades em tecer um qualquer conjunto de palavras que escape ao lugar-comum, e não creio que isto tenha apenas a ver com o facto de estar de joelhos. Parece que se confirma que é muito mais difícil discorrer sobre o Belo do que sobre o Feio. Assumo as minhas insuficiências de análise a esta obra-prima no interior de outra obra-prima, e termino por aqui, antes que comece a chover ainda mais no molhado. Rest, my little one, rest...

gelado #161

10/12/2008

gelado #160


Duzentos e trinta e nove dólares e noventa e oito cêntimos.

Bom, está na hora não de roubar um banco, mas de fundar um.

gelado #159

Há anos, viu dois filmes de Manoel de Oliveira e agora assistiu a Alice (Marco Martins, 2005), Call Girl (António-Pedro Vasconselos, 2007), Juventude em Marcha (Pedro Costa, 2006) e Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes, 2008). Achou que o realizador e argumentista de Call Girl deviam ter escolhido o ponto de vista único da call girl e esquecido os outros quatro (e preconizou que o filme em versão americana teria Angelina Jolie como protagonista) e nos restantes encontrou desejo de aventura e esforço minimalista, mas... "não são muito hábeis". "Se se quer usar uma técnica minimal, tem de haver a certeza de que há um conteúdo tremendo, como no Brokeback Mountain" (ou O Amor é um Lugar Estranho, Morrer em Las Vegas, Confissões de Schmidt, enuncia) e só o encontrou em Alice.
"Como argumentistas, temos uma obrigação para com o público. Pedimos-lhe um grande bocado da sua vida - três horas. É muito, posso jogar uma partida de golfe em três horas. Nesse convite há uma promessa de recompensa. Dar-lhe-ei algo que não tinha antes, fazê-lo pensar, chorar, rir. Vou enriquecer a sua humanidade". Hum.

Sem desprimor para o Alice ( os filtros, ) ), um oásis de qualidade na verdadeira câmara dos horrores que é o mainstream português, gostava de perceber como é que o Sr. Mckee consegue dizer essas suas últimas afirmações como se para tal catadupa de emoções acontecer tivesse necessariamente ( e obrigatoriamente) de existir apenas um argumento de cariz clássico, numa relação causa-efeito indesmentível ou inevitável. É a velha lenga-lenga dos senhores respeitáveis e dos cânones, que parecem desejar a existência de uma verdade universal alheia à vontade de meia dúzia de gatos pingados que, pobrezinhos, até pensam, choram e riem com histórias onde não há psicologia e coiso, aquela cena do enredo. 550 euros por cabeça.

gelado #158


Voza celência que não se apoquente. Voza celência só tem de esperar por um jogo em que aos sessenta minutos o Inter esteja a jogar contra sete unidades, para assim Voza celência se levantar do banco, entrar no relvado, e finalmente ter espaço e tempo para construir os inúteis e apalhaçados números de malabarismo "futebolístico" que Voza celência tanto preza, para gáudio dos Tavares líricos e de outros românticos da bola. Paciência, celência, paciência.

08/12/2008

gelado#157


Em 1995, para comemorar os cem anos da primeira exibição pública cinematográfica, uma série de produtoras (Canal +, entre outras) e instituições (Museu Cinematográfico de Lyon, entre outras) convidou diversos cineastas de todo o mundo para um curioso desafio: realizarem, cada um deles, um filme de cinquenta e dois segundos, sem som sincronizado e com o máximo de três takes, tudo através da caixa dos Lumière. Dream Team de Lumière et compagnie constituído por: Kiarostami, Lynch, Rivette, Wenders, Haneke, Chahine, Spike Lee, Idrissa Ouedraogo, Konchalovsky, John Boorman, Zhang Yimou, Angelopoulos, Costa-Gavras, Raymond Depardon, Arthur Penn, Kiju Yoshida. Num gesto de bondade aos pobres, os mentores do projecto também possibilitaram ao homem comum a concretização da sua façanha, e vai daí convidaram pessoas como Greenaway, Ivory e o atrelado Marchant (e vice-versa), Hugh Hudson, Klapisch, ou Lasse Hallstrom para encher o barco. Para além dos filmes, também se colocavam aos cineastas e ás outras pessoas as seguintes questões: Porque filma? Acha que o cinema é mortal? Algumas respostas são interessantes, outras de mera circunstância e outras ainda que não vão a lado nenhum, e só uma rebenta a escala. Quanto aos filmes, pode-se escrever que seguem a tendência das respostas, com resultados bem variáveis. Do decrescente para o crescente: Greenaway constrói uma abominável "instalação artística", "arte" com a memória do Holocausto e um nu. Um nojo. O de Abbas também não vai a lado nenhum, cinquenta e dois segundos da voz de Isabelle Huppert e um ovo estrelado (com bom aspecto, pelo menos). Spike Lee aproveitou para filmar em grande plano a sua filha a tentar dizer "dádá"; lindíssimo. O de Penn teve o mérito de me fazer reparar numa fenda na parede que eu pensava já estar consertada; há uma quantidade apreciável de episódios decorativos (Ivory, Angelopoulos, Gavras, Klapisch, Depardon, etc) e outra de jogos de espelhos cinematográficos (Lelouch, Liv Ullmann, Nadine Trintignant, Youssef Chahine, Wenders), que embora agradáveis parecem apenas comprazer-se no impulso lúdico. Melhores são os de Haneke, captação das notícias de um telejornal numa televisão austríaca (este homem vê zeitgeist até num papel higiénico), o burlesco de Yimou e do romeno Pintilie, a impossibilidade do cinema do japonês Yoshida, ou a recriação- na mesma estação e com o mesmo ângulo- do famoso Arrivée d' un train à La Ciotat por parte de Patrice Leconte (mais vale imitar uma boa ideia do que ter uma e má). Para o fim, as três pepitas: Idrissa Ouedraogo, do Burkina Faso, Andrei Konchalovsky (sim, o do Tango e Cash) e o de Lynch. O primeiro é uma imparável barrigada de riso, estando a comédia mais na rodagem caótica do que propriamente na acção dramática, esta já de si absurda; o do russo é um espantoso traveling num abismo montanhoso em direcção aos vermes da natureza; e finalmente, o de Lynch, é Lynch. Em menos de um minuto há um cadáver e dois polícias, uma salinha de estar saída directamente dos anos cinquenta, uma sessão de sado-masoquismo com extraterrestres e uma mulher no interior de uma bola gigante com água, há chamas, há explosões, há novamente os polícias: dêem-lhe cinquenta segundos e ele constrói logo um mundo aluado. Como as crianças. Não foi suficiente para esquecer o da pessoa Greenaway, mas reequilibrou as contas neste catálogo desequilibradissimo elevado ao cubo.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.



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