18/08/2008

gelado #52


Alinhavo (há imenso tempo que desejava conjugar o verbo alinhavar) estas palavras a cerca de uns escassos duzentos metros (ou a menos de vinte segundos de distância, segundo a medida de tempo Usain Bolt) de um arraial de Agosto. Os emigrantes estarão por lá, na sua engomada roupa domingueira, a barraca das farturas e do algodão doce cumprirá o ritual de todas as festas, uns dançarão, outros passearão e outros foderão num qualquer beco, o som das colunas do artista pimba convidado estoirará os ouvidos das velhinhas colocadas à beira do palco, seduções movidas a gasóil de imperiais acontecerão, e, quiçá, alguém começará um pequeno texto sobre um filme fazendo um genérico levantamento sobre os prováveis episódios desse arraial. Meu querido mês de Agosto, dizem uns, o mês mais cruel, dizem outros indivíduos, ou até mesmo o Pacheco Pereira; já lá vai o tempo em que laureava a pevide pelas quentes festas em honra de uma Nossa Senhora qualquer, mas sempre que me deparo com uma certa e extraodinária sequência de Sapatos Pretos, ganho súbitos desejos de emborcar quatro bagaços e meter-me à louca no meio de um bailarico popular. Para quem foi ou ainda é habitué de tais divertimentos, só pode felicitar João Canijo pela fiel captação da atmosfera e do ambiente que é estar num lugar daqueles, com as bojardas masculinas em regime de metralha, as roupas apraltadas, respeitáveis e novas, o entusiasmo altamente profissional da banda musical, aquele cheiro a febra e coirato a pairar no ar: meu rico e adorado Portugal, pra quê medalhas olímpicas, quando temos o odor a febra e a coirato a pairar no ar? Prometi a mim mesmo que não iria chorar. Por mais imperfeito que ache o filme (sobretudo o completo artificialismo das personagens e da relação de Ana Bustorff e João Reis, que me parece um completo resquício da mítica femme fatale vs gajo ingénuo, com tiques e toques absurdos no contexto espacio-temporal de Sines), distingo em Sapatos Pretos a vontade em encontrar a mais adequada expressão visual para representar o Portugal do desenrascanço, da banha da cobra, dos copos e das pevides, dos dramas de faca-e-alguidar e dos assassínios passionais, o Portugal do Correio da Manhã e do Crime. Uma estilização excessiva e hiper-realista, pensarão alguns, mas para mim a mais certeira ferramenta imagética tendo em conta os assuntos em questão. Sapatos Pretos forma, com o mais previsível Conte d´été, o meu outro filme de Verão. O arraial continua.

Sapatos Pretos- ***
Related Posts with Thumbnails