29/07/11

mas vossemecês ainda andam por aqui?

Agora ando por aqui. E com companhia.

11/04/11

"mamã, o shôr Van Gogh 'tá a morrer". "' Tá bem. Anda lavar a louça. "


Van Gogh é a obra de alguém que agarrou na sua câmara, no seu tripé, nos seus equipamentos de som e iluminação e nos seus colaboradores e que decidiu plantar tudo isso em 1890, sem julgamentos futuristas nem memórias passadas. O Vincent de Pialat é um gajo qualquer, que por acaso se chama Van Gogh, rodeado de belos copos de vinho e deliciosas chouriceiras, de putedo e pianos, de searas luminosas e tabernas rascas. O pastoral raramente foi tão simples e belo, sem mitificações fúnebres ou deusificações repugnantes (coitadinho do artista, vejam como ele sofre, é tã lindo ser artista e sofrer interiormente, é é), algo que pode parecer fácil, mas que na verdade é extremamente complicado de obter, pois a identificação do ser humano com um seu semelhante ou com uma época pode levar a exageros nada aconselháveis. Se têm dúvidas, coloquem no google "cinema + anos 70 + Vasco Câmara". Depois digam que eu não quero o vosso bem.

04/04/11

19/03/11

eram os anos 80.


Peggy Sue Got Married, maravilha de melodrama com 45º graus à sombra, prova várias cousas. Prova 1): a injustiça que é cometida sobre os anos 80 de Coppola por comparação com os esfuziantes e “adultos” “eram os anos 70” (papá!). À excepção do museu de cera Cotton Club, o homem só fez grandes filmes nos tristes anos 80 (Os estúdios! Maus! Não deixam os meninos fazer os filmes que querem! Vou dar com um pau nos estúdios! ), incluindo dois dos mais silenciosos e ignorados da sua carreira, o Gardens of Stone e o Tucker, o seu Citizen Kane em ponto pequeno, com um Jeff Bridges monstruoso. Prova 2): a Kathleen Turner, ainda que toda giraça e boazuda, parecia ter aos 31 anos mais vinte do que quando, quatro anos antes, deixou de verga tesa o William Hurt no Body Heat. Prova 3): o Nicolas Cage é o melhor actor do mundo a fazer de Elvis de terceira categoria, a meio caminho entre o dengoso e a mais pura chungaria. Prova 4): o Jim Carrey já era um génio. Prova 5): não há como o John Barry para transmitir toda a doçura do reaccionarismo nostálgico. Prova 6): é possível um filme sobreviver à passagem da filha do Coppola (papá, olha a minha nova malinha e o meu sapatito cor de rosa choque!). Prova 7): é sempre uma alegria quando os assassinos de Heysel Park são eliminados das provas europeias. O neandertalismo futebolístico deve ser banido, Prova 8 e última): mas será que ninguém corre com os Deolinda à pedrada? Muito obrigado e até um dia destes. A açorda que comi há escassas três horas estava muito boa.

09/03/11

Brian, 'tou aqui. Dá-me a tua camisola.


Quando, após uma longuíssima e extasiante perseguição voyeuristica, peeping tom e o seu objecto se encontram num túnel à beira da praia, e se começam a enrolar, e a câmara inicia a rota dos 360º, e o décor à sua volta se vai alterando, então, nessa altura, eu não pude deixar de sentir que estava a ser gozado sem a mais leve sombra de pudor. Acendi um cigarro, sorri e pensei: dá-me mais, Brian. Com mais força. Esse plano é só o mais escandaloso momento de Cinema (ultraje!) de um filme que cospe cinefilia hitchcockiana a cada segundo que passa, um mishmash de Vertigo e do Rear Window para a era do softcore, dos cabelos à Roxette, dos sintetizadores (banda sonora de Pino Donaggio a condizer) e da branca (ah, eram os anos 80, e este é o filme preferido do Patrick Bateman e a cona da mãe aos saltos). Há panorâmicas e movimentos de grua a revelar o que parecia não ser (primeiros cinco minutos puros de Palma e a mentira das imagens), há planos gerais porque sim, há claustrofobia em vez de vertigens, há a Melanie Griffith com menos uma tonelada, há máscaras, é chungaria , é gratuito, é glorioso. Homens a perseguir mulheres: não é preciso mais nada para se fazer um filme. Bom, talvez uma câmara (era atirá-lo ao fogo!). Segundo a escala Alberto Seixas Santos, Body Double estreou sete anos antes de o cinema ter terminado.

04/03/11

...e os pássaros chilreavam, e fumava-se nos cafés, e uma pessoa acordava com as narinas inundadas de liberdade e maturidade, ahhh...

Depois de, chocado, me ter apercebido da aparente disserção do MÁRIO Jorge Torres dos quadros do ipsilon (ou foi erro de impressão?), esta Sexta-feira reservar-me-ia ainda outra desilusão cinéfila. Estava eu aos saltinhos e a babar à espera de mais um convidado a dissertar sobre o Film Socialisme (do caralhão, cujo texto sairá muito em breve- ainda esta década) e a versar sobre o tema "papá, os anos setenta no cinema amaricano foram muito bons, não foram? Não só no amaricano, filho, foi em tudo o mundo. Sério, papá? Sim. Uma pessoa tinha uma ideia num dia e no outro o filme estava pronto para estrear. E era só temas adultos. E o céu era mais bonito e respirava-se melhor. Que inveja, papá. Bem podes ter, filho. Eu e o teu tio, aos sábados, saíamos de casa de manhãzinha, íamos ver um Godard ao Quarteto, depois íamos ver o Benfica dar na pá ao Barreirense, depois , na tasca do teu avô, formávamos uma tertúlia sobre o Tarkovsky, e o Cimino, e o Coppola, e o Bogdanovich, era tão lindo, filho. Papá, não me faças chorar. Chora, filho. E depois da tertúlia íamos às meninas, e depois das meninas voltávamos ao cinema para ver um Chabrol, e mais cinema amaricano adulto dos anos setenta, ah, a liberdade. O Cinema acabou nessa altura, filho. Mas papá, o Alberto Seixas Santos diz hoje, no ipsilon, que foi só há vinte! Foi há mais, filho. Além disso, o Alberto anda confuso de datas, porque ainda há dois anos ele disse que "o cinema acabou", a propósito da morte do Bénard, que Sterling Hayden o tenha. O cinema acabou quando o o Brando é chacinado pelo merceeiro do Martin Sheen...filho, filho, não chores. Não consigo evitar, papá. Amanhã vamos ver dvds do cinema amaricano dos anos setenta, filho, que era uma coisa adulta, antes do bandido do Spielberg ter vilipendiado o templo. Papá, estou a ficar mais feliz! Óptimo, filho. Agora vamos ver se a tua mana já em maminhas. Ah, eram os anos setenta. Tão adultos." quando, mais uma vez petrificado, descobri que não havia convidado nenhum. É por estas e por outras que o cinema acabou há sessenta e cinco milhões de anos, quando um asteróide rebentou com tudo.

03/02/11

fumanços.


Após uma recente revisão de Iklimer, cheguei ao âmago da questão: o filme de Ceylan tem uma história que serve de pretexto para mostrar pessoas a fumar. Mais do que isso, para mostrar o deleite que é acender um cigarro, de o travar, de inalar gostosamente o fumo até ele se enterrar bem enterradinho nos pulmões semi-carbonizados. O som hiper-realista do cigarro a ser acendido só tem paralelo, a meu ver e se a memória na me falha, nas lightaidas (de light) do Cage e da Laura Dern no Wild At Heart. Que maravilha. E é vê-lo com um maço de cigarros ao lado, bem cheio, fumando quando os personagens fumam, numa comunhão cancerígena digna de louvores. Se não aguentar tanta cigarrada, convide o seu filho ou filha adolescente, mas atenção: diga-lhe que só fumas se estiveres atento ao filme e depois me entregares uma crítica em cinco mil caracteres. Se escreveres "é um filme competente, realizado com mão segura", vou-te ao cu. Bom, vou meter dois na boca.

futurologia.

Quando, daqui por alguns (longos, espero) anos, os meus netos se estiverem a queixar do Inverno excessivamente frio (25º à sombra), dos barris de petróleo a 10.000 dólares o barril, da ditadura da Irmandade Muçulmana egípcia que asfixia os direitos do povo dos faraós, da Happy Woman continuar a existir, de não terem suficientes pensamentos inúteis para colocar no Facebook para engatar pitedo, e de demais desgraças do mundo por devir, eu, com uma caneca de chá numa mão e um charuto americano produzido no estado de Cuba na outra, dir-lhe-eis: meus queridos, eu já vi uma defesa do FCP ser constituída por um Sapunaru, um Rolando, um Maicon, e um Sereno. Por isso, deixem-se de mariquices e tragam-me esse ipsilon de 2008, onde o Jorge Mourinha dá quatro estrelas ao Stardust. "Papá!!!!". Digam, filhos." O Avô está a assustar-nos! E está a ver coisas que metem ovelhas e meninas barely legals!!!!".

29/01/11

ya, meu, já ´tou a ver tudo enevoado.


Ah, a adolescência, essa bonita e maravilhosa etapa da vida onde não beber uma bejeca ou um shotzinho de pontapé na cona pode significar o degredo no seio do "grupo", e em que as jovens e os jovens, para camuflarem as suas inseguranças de banais seres humanos, bebem muito para se livrarem das amarras do inconsciente, mesmo que isso signifique, para a jovem, ser apalpada ou esporrada por metade da população civil inserida na faixa etária dos 15 aos 35 anos. Também há aquele grupo que, numa atitude de difícil interpretação, começa a exprimir-se mais livremente após meio copo de tinto bebido. É tão nice, esta cena. Mais tarde, o grupo de teenagers dividir-se-à entre entre os bêbados de profissão, aqueles que derretem as mulheres, os cães, os gatos, os sinais de trânsito e a televisão quando o Cardozo falha de baliza aberta, e os bêbados artisticos, os sujeitos que destroem ou enaltecem as suas obras com odor etílico. É tão perturbado e auto-destruidor, vejam (por falar nisto, aquela merda do Control, visto recentemente, não perderá pela demora). É nesta sub-divisão de borrachão que se insere Don Birnam ( Ray Milland), um rapaz que, cheio de medo da vida e dos seus desafios, prefere enfrascar-se diariamente, correndo assim sérios riscos de perder os seus "entes queridos", e também o fígado. O the big picture de The Lost Weeekend é isto, a típica estória do desgraçadinho a contas com uma garrafeira dentro da cabeça. Mas uma obra com argumento de Billy Wilder ( o comentador Vasconcelos com passaporte norte-americano, como afirmou alguém nos anos cinquenta, junto a uma fossa séptica) e Charles Brackett, pese embora, aqui, os seus excessivos episódios de DT ( morcegos na parede, ratos, Correio da Manhã inteligente), consegue sempre encontrar pequenos episódios pontilhistas no meio do chumbo, como a deliciosa obsessão do bêbado com os círculos nas mesas feitos pelos copos, ou a acumulação das garrafas de leite junto a uma porta. E o tratamento do preto-e-branco, bem como os ângulos oblíquos da câmara, sugerem algo mais próximo do noir existencial (aquela coisa do destino, parece-me) do que do mero caso da vida de Domingo à tarde. E agora, com licença, vou agarrar numa puta de uma cadeira, numa puta de uma aguardente velha, vou abrir a puta da porta, vou pó caralho do quintal, e vou olhar pó caralho do céu, à espera que a vaca gorda da Betelgeuse expluda de uma vez. É tão fixi ser bêbado aos dezasseis anos.

21/01/11

"tens a cona cheia de moscas".


Metade de Kinatay desenrola-se na quase completa escuridão. Outros 25% possuem uma carga luminosa ligeiramente superior à do Branca de Neve. E a percentagem restante está recheada de luz e cor, como diria um radialista a anunciar o fogo-de-artifício de Sábado à noite nas festas de Nossa Senhora dos piolhos. Em qualquer das partes, um ponto em comum: o demencial tratamento sonoro, seja par realçar o caos reinante numa Manila atravancada de pessoas, lixo, bugigangas e galinhas, seja para nos guiar, pobres espectadores sem binóculos de visão nocturna, por uma longa e negra viagem e onde muitos bonitos momentos acontecerão, a começar por uma das maiores brochadas dos tempos recentes. E tudo por entre diversas alusões a Jesus Cristo Todo poderoso e o respectivo contraste com a "maldade humana" (nada de novo na frente oriental), noção embutida da velha máxima muito lynchiana de que a "depravação" e a "normalidade" doméstica ocorrem lado a lado ( exemplar último plano). Posto isto, o Brillante que goze muito bem o festim crítico que para aí vai, pois não tardará muito a ser sacudido à vergastada palavrosa por diversos judas (vide Kitano). Ca ganda mamada.
Related Posts with Thumbnails