22/05/2009

e o Cinema continua...



Lá vou eu ter de bater no ceguinho (mesmo que endinheirado), coisa que não me apraz por aí além, pois faz-me recordar aqueles comediantes portugueses que fazem piadas com as figurinhas do panteão nacional, como se envolvesse uma grande dose de "coragem" e "independência" a caricatura dos Cavacos e dos Santanas e dos Delfins e por aí fora. Mas o que tem de ser tem mesmo de ser, e portanto relembro aqui o que disse o zé merdas do Ron Howard numa entrevista recente: Mudar de estilo, é esse o meu estilo!. O cretino estava já com umas boas doses de aguardente de abrunho no bucho, pois em sóbrias condições teria dito: Não ter estilo nenhum em absolutamente nenhum dos meus não-fimes, é esse o meu não-estilo. Agora que vá em paz e que continue a filmar os seus coriscos e os seus aleijadinhos brilhantes, que eu, no lugar dele, faria o mesmo para ter a barriga empapada em lagosta. Serve este preâmbulo para apresentar Election, obra de um realizador, esse sim, que se pode gabar de mudar de estilo sem que os alicerces da indistinção e da modorra surgem à espreita: gélidos policiais à The Mission, espalha-brasas em FullTime Killer, musicais, comédias de terror, tudo enquadrado numa média assustadora de oitenta e sete filmes por ano, filmados e montados cada um deles em cinco dias, à velha maneira Corman. Este Election (cuja segunda parte me falta ver) poderia ser uma resposta aos lirismos de Woo, se Johnnie To não tivesse, ele próprio, elevado já essa mesma escala de floreados à beira da pantominice mais absurda. A pancadaria é desprovida de efeitos coloridos e tão realista ao ponto de pender ora para o burlesco ora para a mais desapaixonada crueldade. Isto é o menos: o que interessa, aqui, é pôr em marcha o funcionamento de uma organização social (gangsters), com uma atenção particular aos seus rituais e tradições colectivas e o choque com os golpes palacianos da modernidade, em que os preciosos valores democráticos já não se respeitam. Burocracia criminosa no seu melhor. Pena, então, que toda esta secura prenda Election demasiadas vezes ao chão, impedindo-o do golpe de asa que rebente com tudo. Foi a impressão com que fiquei, mas também tinha acabado de comer feijoada.

Também há muitos bandidos em Get Carter, um filme de Mike Hodges que alcançou esse sempre dúbio galardão de " filme de culto", mas que a mim pareceu apenas mais uma foda velha (c). Possui aqueles horrorosos zooms dos anos 70 (Visconti só há um) e uma história de vingança tratada com o banalismo fílmico que desvitaliza sequências com um enorme potencial. Michael Caine incorpora a quimera do macho: mata outros homens, fode e bate em mulheres, e é justo, sem qualquer reserva de arrependimento. Como consolo, há a diminuta (equiparável ao tempo dispendido com esse material) satisfação pelos momentos em que se revela o proletariado do Norte de Inglaterra, especificamente de uma Newcastle mais encardida que a face de um menino dos bairros da lata (depois de tomar banho). Os seus rostos cansados e de cerveja na mão poderiam ser incluídos numa grande colectânea com o título: Grande Colectânea de grandes planos do Povo ao longo da História do Cinema. Prefiro o Charles Bronson.
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