23/12/2010

um santo, a todos...


...menos ao comentador Vasconcelos, a analistas políticos, a economicistas, a banqueiros, ao Christopher Nolan, a jovens que vão para a manifestação "anti-Nato" porque "é fixi, é tão anti, vamos partir esta merda toda, caralhe!", áquelas velhinhas e velhinhos que atravessam as passadeiras sem olharem para qualquer lado, aos pretos que colocam o som dos iphones ou dos ipods ao nível máximo nos comboios, ás pitas histéricas em dia de saída "pá night", a todo e qualquer jornalista do Record e do Correio da Manhã, aos velhinhos e velhinhas que passam à minha frente na fila do Pingo Doce, sem pedirem autorização, aos velhinhos e velhinhas que me lançam olhares amaldiçoados quando estou a afumar a menos de 200 metros dos seus frágeis ossos, a todos os anti-tabagistas fanáticos, aos editores televisivos que colocam musiquinha triste por cima de imagensjá de si caliméricas, aos bebés chorões que na me deixam , por vezes, ter uma refeição em paz num restaurante, a esses filhos da puta das agências de rating, a esses filhos da puta que fazem sempre circo numa arruada do BE, ao Cavaco e ao Sócrates mais a incrivel estupidez intelectual que os dois mostram na cara, ás gajas que na me querem mamar só porque eu escrevo coisas como "ás gajas que na me querem mamar", e também aos jogadores do Barcelona, larguem a bola cabrões, anões do caralho, eu cá voto no Iniesta. Posto isto, paz e harmonia.

12/11/2010

gestos.




Não ficaria infeliz se todo o cinema fosse sobre "personagens, gestos, troca de cigarros, troca de adereços". E ainda sobre comer sopa, cortar alho com uma lâmina de barbear, mexer em papéis, inserts em grande plano de cigarros a serem queimados, mulheres a maquilharem-se ao espelho durante dez minutos e sem qualquer tipo de música a perturbar, homens a cortar barba, beber chá, o som dos saltos altos no passeio, o sibilo da chuva, pneus a atravessar terra batida, casas (como o Moretti no Caro Diario), enfim, toda a ritualização do que é considerado acessório na "arte narrativa tradicional". Por entre as mil e uma boutades de São Jean Luc, as 24 horas da verdade, uma arma e uma rapariga, essa caralhada toda, existe aquela onde se pede mais atenção a uma folha a cair de uma árvore, ou coisa parecida.

Em cima, Politist, adjectiv, grandioso exemplar do movie about nothing.

11/11/2010

amanhã irá estar nublado, segundo o instituto de meteorologia e geofísica ou, por outras palavras, Anthímio de Azevedo.


Lusco-fusco, já mais para do que para . Tonalidades violeta, cigarras a soar e um grande casarão no meio do nada. Só falta sentir o bafo de calor de encontro ás ventas. É o Verão monteirista.

'tou-me cagando.

08/11/2010

"sames o maior clube do mundo". palavra de humilde.


Após mais um enfardamento (e específico enrabamento futebolístico do "melhor central do mundo" e do "melhor lateral esquerdo do mundo"), os adeptos (muitos, quase todos) da agremiação da pureza, do bem e do triunfo da justiça vêm agora pedir contas sobre as tácticas do Jasus e, o que para aqui interessa, sobre a sua suposta bazófia e falta de humildade (Portugal, o país onde os talentosos têm de ter discurso de medíocres). O mesmo Jasus que há um ano, através do seu reconhecido recato e modéstia, levou o team da verdade e da bondade a vencer um campeonatozinho, fazendo despertar nos adeptos (quase todos, muitos) do clube da decência e da transparência ascetismos de vária ordem que transformam o Proust dos últimos anos em festivaleiro epiléptico: Sames a melhor equipa portuguesa dos últimos trinta anus! Na Eurupa, só sames menos bons que o Barcelona! Ganhárames o campionato, e agora vamus ganharar tudo ké taza! Iztá aberto um novo sículo! Sofrer de esquizofrenia é o mais perto (mas não tão perto assim) que um ser humano pode estar do benfiquismus neanderthalis.

30/10/2010

desenjoar de Romeros. o pintor e a aldeia.


Com Mercedes Álvarez. Também a "captação de um tempo e de um lugar". Felizmente, sem atrasados mentais à frente da câmara nem azeitonas explanatórias.

"the camera is the whole thing".


Diary of the Dead encerra com uma pergunta pertinente: Are we safe? Temo bem que não. Receio bem que cada vez estaremos menos safos de filmes como este Romero, um daqueles filmes que tenta "captar o espírito de uma era" e o caralho que os foda a todos, com muita retórica pedagógica sobre a responsabilidade do jornalista-cidadão e o uso das "novas tecnologias" e o papel (de parede, presumo) das redes sociais e demais assuntos alimentícios para fanáticos do Steve Jobs. Mise-en-scène inútil (típica de George, um gajo que apenas tem a reputação que tem porque, estão a ver, ele ...yah...luta contra o sistema...passa-me os limões...e...e...faz obras políticas...yah...passa-me a colher...e os zombies...os zombies...são metáforas, tá-se?...yah...e...o sistema...ai...que este sistema é mesmo bom...dá mais 100 gramas), com uma montagem aleatória de diversos dispositivos de captação (o tal "ar dos tempos"), um pretenso efeito de distanciação em relação ao sujeito que está a pedir mesmo almofada, e jovenzinhos a brincar ás éticas dos repórteres sem fronteiras. Como o vício de captar tudo o que mexe é uma das trends do dia, brevemente ainda iremos assistir a um filho a filmar um negão a violar a mamã, gritando de raiva É uma Catástrofe! É um Horror! É uma Tragédia...é uma tragédia eu ter tão pouca bateria na câmara! Quem mete o Romero no mesmo campeonato do Carpenter deveria ser preso.

12/10/2010

algo, definitivamente, extraodinário.


Edvard Munch, Peter Watkins.

a arte barata.


Por menos de dois euros, o Público distribuiu na passada Sexta-feira uma cópia de uma das obras-primas artísticas do Século XX. Espera-se, pacientemente, e a um preço semelhante, a distribuição de cópias em tamanho igual ao dos originais de obras de arte como "Les Demoisseles d' Avignon", um boneco qualquer do Lichtenstein ou aquele telefone-lagosta do Dali. O cinema na pode ser subalternizado.

"um dos maiores cineastas vivos, juntamente com o Almodóvar e o Eastwood".


Jason Reitman acaba de ter uma ideia.


Um dos sinais de demência precoce é escrever ou afirmar que "A Canção de Lisboa" é o seu filme preferido. Outro, será ter em conta o Jason Reitman como "um dos grandes realizadores actuais". Como uma das anomalias acima descritas já é bastante grave, há quem, como, sei lá, o comentador Vasconcelos, não se faça de rogado e possua as duas exuberantemente e com o orgulho de um lunático. Desde o assustador "Les chansons d' amour" que não ficava tão mal disposto com um filme, como aconteceu com "Juno". E só foram dez minutos de visionamento. O tom chico-esperto, aquela insuportabilidade comportamental a que os americanos deram o nome de quirkiness , a Ellen Page a bombar "grande interpretação" por cada poro do seu minúsculo corpo, o argumento carregadíssimo de personagens "picarescas", uma voice-over a martelar a minha frágil membrana timpânica. E tudo isto apenas nos massacrantes dez minutos iniciais. Ter esta merda em casa é uma verdadeira maldição.

poder negocial.

Segundo consta, elas preferem homens que transpirem confiança, poder, segurança e dinheiro, sendo a ordem arbitrária. Posto isto, vamos ficcionar uma noite de amor entre uma esposa e o seu marido, que por acaso também é administrador de uma companhia de combustíveis.

esposa: Amor, está-me a apetecer algo.
ladrão: Então?
esposa: Quero que me possuas à bruta e me chames nomes feios!
ladrão: Estás molhadinha, sua....sua pobre?
esposa: Hummm...sim, adoro quando me chamas isso!
ladrão: Sua assalariada! Funcionária pública! Desanco-te, espanco-te e rebento-te a cona com o meu míssil!
esposa: Hummm...meu pulha! Mostra-me como és poderoso!
ladrão: Sou muito poderoso! Sou administrador de uma companhia de combustíveis que finge uma falsa concorrência com outros administradores de outras companhias de combustíveis, para no fim gostosamente aumentarmos o preço dos combustíveis, dando justificações estapafúrdias para tal, conseguindo assim iludir a maior parte do povo, que é estúpido como uma porta, pois só quer é saber da bola!
esposa: Aiiiiiiiiiiiiiiiiii...deixas-me de rasto, meu patife! Mais!! Mais!!!
ladrão: Estoiro-te! E ao aumentarmos os preços fazemos com que o povo, já carecido de dinheiros, vá ter de abdicar do seu automóvel para andar em transportes públicos com o restante povo, todos engalfinhados em hora de ponta, a aspirarem o suor uns dos outros e a terem de ouvir a kizomba altíssima que sai dos ipods roubados dos pretos!! Estás a ouvir bem, sua cigana, sua beneficiária do rendimento de inserção??
esposa: Não vou aguentar muito mais!! Estou a arder!!
ladrão: Habitante de Chelas! Abre mas é a boca para levares com todo o meu poder negocial, antes que te enfie no carro e te empandeire para um centro de emprego, onde terás de estar entre duas a três horas à espera de ser atendida, sua remediada!
esposa: yeeyyyyyyyyyy...bate-me na cara com o teu Visa Gold!

e por aí. Também estão disponíveis as versões esposa e administrador de uma agência de rating, esposa e administrador bancário e um gajo qualquer e Zé Sócrates.

18/09/2010

´kjweh.


Ritwik Ghatak. Meghe Dhaka Tara. É perfeitamente possível nunca ver isto e vir-se a ser um cineasta com admiráveis capacidades imaginativas para o melhor uso do som. Claro que é possível. Ignorância é felicidade, já escrevia o Bill Watterson.

os genuínos...


...The Expendables. A sagrada família de Mr. Browning.


ps:- e o Mickey Rourke? coitadinho, o homem "passou por tantas dificuldades na vida...".

este post é um ensaio devastador sobre a sombra do "11 de Setembro".


Sasha Grey. Note-se a referência ao "11 de Setembro".

E lá se passou mais um aniversário do "11 de Setembro". Há já algumas temporadas que não leio que "este filme tem como background o "11 de Setembro"". Que saudades desses tempos. Um gajo ia comer uma tosta mista, era uma alusão óbvia ao "11 de Setembro". Uma mulher andava descalça no quarto, era um piscar de olhos ao "11 de Setembro". Um cão mijava junto a um tronco, lá está, reflexão cultural sobre o "11 de Setembro". O Oliver Stone fazia uma caralhada qualquer com o Nicolas Cage, e lá vinham os sermões do "11 de Setembro". Se não me engano, acho que até nos clips da Madonna se encontravam subtis pontilhismos referentes ao "11 de Setembro". Tempos de bela comédia. "O 11 de Setembro".

conselhos para engatar gajas de meias ás cores: dizer-lhes ao ouvido "Pedro... Tamen".


...e quando, há uns dois, três anos, houve uma daquelas "correntes" blogueiras em que cada blogeiro escolhia os cinco ou dez livros que mais o tinham marcado ao longo da sua vidinha? e quando, antes ou depois de registados os títulos da sua glória, o autor deixava bem claro que "ah, e já me esquecia: nesta lista não entram nem o Proust, nem o Joyce, nem o Faulkner! Não entram e não entram! Toma, toma!"? Parem de rir, se faz favor. Só para avisar, aos meus futuros netos, que o vosso avô se iniciou nas leituras do À la recherche du temps perdu (sinto-me culpado por não escrever isto sem o apoio de monóculo ) no dia 16/09/2010.

05/09/2010

adorei, adorei, adorei.


Acabado de ver. Depois de algumas resistências, de muita preguiça e de uns tantos esquecimentos. É tudo muito simples: como sou um gajo que, cada vez mais, não gosta dos filmes pelos "conceitos" e pelos "temas", vou então atribuindo importância desmesurada ao real do filme. Aos materiais. Eu quero é saber o que é que o realizador fez com um certo som, uma tal música, uma tal luz ou um tal movimento de câmara. "Ideias" (no sentido geral em que, infelizmente, são entendidas) podem bem ir pó olho do cu. Documentário? Pó caralho. Ficção? Pó caralho. Muito mais importante são os momentos, é o Tony Carreira a suar sublimamente sublime, são os ombros da Sónia Bandeira, é o Joaquim carvalho a mexer no calhamaço do argumento, é o tempo que se permite para gente do nosso querido Portugal contar histórias de faca e alguidar, de aroma a chouriça assada e a vinho verde, são os gigantones em plano geral a saltar ao som dos tambores. É isso. Num filme tão apoiado nos andamentos musicais ( não-diegéticos a maior parte e ainda por cima tão "deslegitimados" ) o risco era grande, mas conseguiu-se o incrível sucesso de cada uma dessas entradas sonoras parecer sempre justa e apropriada. Um incêndio nocturno ao som de Marante: belíssimo.

1984.

O 1984 orwelliano é uma daquelas obras que, finda a sua leitura, provoca no leitor uma ligeira percepção diferente do mundo. Pelo menos durante trinta segundos. Passado esse tempo, lá se volta ao rame-rame da vidinha, colocando-nos questões tão importantes como a de saber se um editor de jornais desportivos consegue dormir em paz depois de escassas horas antes ter escolhido manchetes para os seus cagalhões de papel. O 1984 fílmico, de Michael Radford (o do filme do Neruda! Fujam!- grita a plenos pulmões um jovem trintão neo-liberal um minuto antes de escrever mais um post ou um artigo sobre o par de tetas da Scarlett Johansson ou sobre essa ciganada que foi corrida, e muito bem, pelo Dr. Sarkozy) não alcança tamanha façanha, mas it's pretty good. Concentra-se no essencial do livro (e daí que alguém possa ver aqui nada mais do que uma homenagem académica ás "ideias" base daquele) e tenta transplantar para a tela a ambiência de opressão vs liberdade (os travellings aéreos sobre o local de trabalho, os silêncios nas ruas hediondas, pernas de dois amantes entrelaçadas) , o que consegue, não sem alguns pirlimpimpins de poesia, como os planos dos sonhos verdejantes de Winston Smith, tão bem explanados nas letras do George. Richard Burton está, minha mãe, simplesmente brutal de contenção (imaginei um O'Brien muito mais vigoroso) e o John Hurt está com trinta quilos. Parece que acabou de sair do Lux. O último plano (equivalente literal à última linha livresca) merece entrar para o panteão dos "mais belos momentos de derrota na História do Cinema".

2010- mais um ano em que o cinema acabou*.

The Ghost Writer, Toy Story 3, Shutter Island, Irène, Night and Day, Lebanon, Mother, Vincere, Wendy and Lucy, 24 City, Shirin, La Danse, Tony Manero,...

Esta conversa do "cinema acabou" ou do ainda mais repugnante "o cinema 'tá cada vez pior, eu agora é mais séries" faz-me lembrar a minha avó que acha que cada Inverno é mais frio que o anterior ou que cada Verão é mais quente e abrasador que o antecessor. Pensando bem, tudo bate certo. Estas bojardas de cataclismos cinematográficos são muito comuns entre velhos marretas ou entre jovenzinhos que parecem adorar passar por velhos marretas.

"cinema acabou"- Alberto Seixas Santos and Company Limited. Todos os direitos reservados.


ponto da situação.

Nesta sociedade global e em permanentes mudanças (uma das expressões-jargão da actual sociedade global e em permanentes mudanças) há certas coisas que, ao longo dos anos, se vão alheando de modas e que continuam de pedra e cal. Tais como:

1) uma notícia televisiva sobre a "crise económica" é invariavelmente enquadrada por planos da Rua Augusta. "Chefe, temos aqui uma notícia sobre a "crise económica". "'Tá bem. Manda o Carlos pá Rua Augusta".

2) Os anúncios televisivos a um concerto do Leonard Cohen incluem, ad eternum, sempre as mesmas duas músicas: Dance me to the end of love e Hallelujah: "Amor, vamos ver o Leonard Cohen? Ele canta o Dance me... e o Hallelujah." "Vamos, querido." "Temos tanto prestígio, não temos, querida?" Temos muito, meu amor."

3) As meninas da Liga que surgem a ladear os árbitros de futebol nos jogos do campeonato são , em 98,9% dos casos, louras e mamalhudas.

4) Quando há uma notícia de grande magnitude na vida civil portuguesa, uma das tarefas-primeiras do jornalista televisivo é construir uma outra notícia onde se salienta, com voz imperial e orgulhosa, que "este caso foi acompanhado em todo o mundo, como se pode ver na primeira página do El País".

A alguma coisa nos temos de agarrar.

28/08/2010

"mamã, mamã, o Gódárde foi receber um prémio dos imperialistas!" "Pronto, pronto, vou chamar o doutor...".




Será pouco provável que por lá apareça, mesmo que seja encontrado (vivo). Se aparecer, aposto algumas fichas em como dirá alguma boutade para pôr a arder cu de menina de meia ás cores. O cenário mais improvável, e interessante, seria aparecer, agradecer emocionado, e, posto isto, continuar a jantar na maior das levezas imperialistas. Penso que bastaria para meter de baixa médica, durante um mês, alguns dos seus admiradores mais fanáticos (tipo os maluquinhos da Apple). E eu ficaria contente, claro. Não tenho muito que fazer.

25/08/2010

ainda Lee Marvin.


um homem desespera nas filas do Pingo Doce, sente-se feliz da vida se uma rapariga em bikini se senta a menos de dois metros de distância, tem de contar o dinheiro para o tabaco, e, sem querer e com riscos de cegueira, ainda passa por vezes o olhar pela Benfica Tv. E depois revê um filme em que entra o Lee Marvin. Como não há-de um homem se projectar naquela massa de firmeza e de seguida começar a babar? Se fosse vivo, e se entrasse para o ano que vem num do Eastwood, haveria gente mais do que respeitável a guardar lugar à entrada do cinema.

The Man Who Shot Liberty Valance.

é berdade, xim xenhor. bi ali , naquele frame , uma referênxia ao xôr Minnelli.


Como action picture, é nulo. Tosco, mal filmado, mal montado e, pior ainda, sem um pingo de sinceridade. Mas, que interessa isso? De facto, que interessa? O fã de The Expendables, atrevo-me a presumir, aprecia o filme por motivos alheios ao próprio filme. À priori. Desde que se reúna, esta maltosa pode preencher a tela a fazer bordados, a mexer ovos, a dar aulas de mecânica quântica, a discutir existencialismo, ou a cagar num pinhal da Lousã. Desde que esta gente lá esteja, who cares. O fã come, o fã gosta. O fã, se 'tiver um bocadinho mais bebido, e ainda por cima depois de um belo repasto de bacalhau à lagareiro, ainda começa a brincar às referencias cinéfilas, delirando com Fords, Walshs, Aldrichs e, se o nível de aguardente for muito alto, Hawks ou mesmo Welles. Tem desculpa, depois do almoço, esta sempre delirante tarefa de encontrar pérolas na pocilga. E nem quero pensar se a esta malta de has beens (coitadinhos, tenho tanta pena deles, então do Rourke, que aperto do coração) se juntassem o "treinador de futebol" Maradona ou o fantasma apodrecido do Lee Marvin; acho que haveria gente mais do que respeitável a babar-se para o banco da frente. É esta coisa dos velhinhos, dos contra-correntes, da nostalgia. Se fizermos a equação velhinhos+contra-correntes+nostalgia, então obtemos The Expendables. Uma espécie de Sex and The City para meninos que querem ser duros por um dia. Não vale um pintelho de qualquer Rocky, qualquer Rambo. Epá, é o pior filme do homem. Pior que o Judge Dredd. Vai-ta foder, Sly, deixa estas merdas apalhaçadas e faz Rambos até ao final da tua vida.

kino-trambolho.


Estava eu a ler a passagem de Sodoma e Gomorra, quando me veio à vontade o desejo de ver o Star Trek, o do gajo que criou aquela série (mais estimulante que 90% do cinema actual!) onde um conjunto de invertebrados perdia-se em Santa Cona da Mata Real. Em boa hora surgiu tal desejo, pois após uma boa sucessão de grandes filmes vistos e revistos, não há nada como descer à terra e reflectir: já me esquecia que a humanidade é uma coisa piolhosa. Então, despojado de preconceito, juro, comecei a ver o dito. Cedo percebi que estava na presença de uma ode à recontextualização à la siècle XXI: gajos novitos a mandarem piropos a gajas jovens de mini saia e fartas mamas. Uma atitude prudente do senhor Abrams, não vá a juventude ficar perplexa por não se reconhecer na tela, os rebeldes. Depois, é só contar os degraus da tijoleira universal da imagem e som do siècle XXI: cenas no interior de uma nave constituídas apenas e só por travellings curtíssimos, para criar "frisson"; constantes reflexos de luzinhas, para vermos para onde foi parar o dinheiro, ai que modernidade; impossibilidade permanente de se saber onde acaba o espaço de um objecto e onde se inicia o de outro (volta McTiernan, e até um Brakhage parece clássico ao pé desta mistela espacial); pancadaria sonolenta, banda-sonora filha-da-puta (assassínio dos Beastie Boys em andamento), humor abaixo de cão (Verhoeven, faz-me um filho) e o Eric Bana que vendeu a alma ao Demo. Uma caganeira de fealdades sem fim. A não ser que a) seja um Trekilândio que sabe de cor o tamanho da unha do dedo mindinho do pé esquerdo do capitone Kirk, b) escreva, num jornal diário, uma coluna de Tv e simule ser crítico de cinema às sextas, ou c) tenha o grau de exigência de um chimpanzé, e ainda d) tudo isso junto e mais alguma coisa, não estou a ver como é que algum cidadão recenseado possa apreciar esta "obra-prima absoluta" (b).


19/08/2010

Há que manter o mínimo de sanidade mental.



No Verão.

"é mais estimulante que 90% do cinema actual"-uma das frases preferidas de um crítico do Público que dá , em regra, 3 a 4 estrelas a tudo o que mexe

"É um filme sólido, com boas interpretações"* está para o jornalismo cinematográfico como "contratação de x está presa por detalhes" e "continua a lavrar um incêndio de grandes proporções" estão para o futeboleiro e incendiário, respectivamente.

*coisas tipo About Schmidt e assim.

13/07/2010

double bill: Garrel vs Zombie.



Uma das mais fascinantes particularidades do cinema é tornar-nos próximos de indivíduos que na vida real nos provocariam, no mínimo, um ataque de ranho. Tomemos como exemplo François Mauge, personagem principal de Sauvage Innocence, de Philippe Garrel, e que me traz à memória um sketch dos Gato Fedorento pré-pimba, um em que o Quintela entrevista o Araújo Pereira, perguntando-lhe se ele é mesmo poeta, ao que o Araújo Pereira, afectadissimo, responde: Claro. Repare, tenho uma boina. Como inspiração poderíamos perguntar a Mauge se ele é mesmo um "jeune cineaste com aspirações artisticas". Claro. Repare no sobretudo coçado, no cabelo cuidadosamente desalinhado, no meu ar enfastiado. Mas é mesmo? Então, mas duvida? Não vê, arrojadas aos meus joelhos, as jovens de meias ás cores, de flor no cabelo, e de sapatos de fivela, e que se masturbam a ver o The Dreamers e que suspiram de desgosto por não terem presenciado in loco o Maio de 68 (papá, papá, conta-me outra vez o Maio de 68! Outra vez? Sim! Pronto, pronto, senta-te no colo do papá. Então foi assim, havia uns bandidos...) ? Ah bom, sendo assim. Para suportar, num filme, um gajo assim, é preciso que à sua volta haja algum cinema, e Sauvage Innocence tem mais do que algum cinema, possuindo uma visão ácida e irónica sobre a relação sempre fértil entre as liberdades criativas e o mundo cão da vida real, tudo imbuído daquilo que eu gosto: pessoas a comer e a beber com gusto, silêncio para ouvir o timbre de cada palavra, aroma a melancolia, e uma jovem que levaria uma foda numa convenção nacional do BE. Poder-lhe-ia recitar, enquanto a canzenava, as minhas memórias de um outro Maio, o de 1987. A Nouvelle Vague é tã linda.

Se, por qualquer acidente, o leitor ou leitora (que certamente lerá estes posts munida apenas de lingerie e gag ball) é um/a "jeune cineaste com aspirações artisticas", então, para além dos imprescindíveis considerandos visuais, há que realizar uma outra tarefa: não ver, de jeito nenhum, coisas como The Devil's Rejects, de Rob Zombie, o grunho. Eis um filme que é uma preciosa e ilustrativa lição de como foder um filme com premissa apelativa. Câmara muito à mão porque sim, porque, afinal, estamos no Século XXI, banda sonora intrusiva como o Diabo, uma montagem parte-brita que consegue a rica proeza de não estabelecer o mínimo de emoção ao todo, e como cereja no topo da porcaria, um climax a transpirar audiovisual moderno por todo o lado, uma pretensa homenagem a Wild Bunch mas que no fundo não passa de algo feito por um sujeito que confunde tensão com ruído e lixeira musical, tudo ao monte, que assim é que é. Os correligionários da Série Z (aka série de filmes que podem ser nulidades absolutas pois ninguém pagará contas por isso) que me perdoem, mas isto é um cagalhão de todo o tamanho. Não é Peckinpah ou Tarantino quem quer. Mais, não é sequer Rodriguez quem pode. O Zombie que volte lá para as musiquetas do fuck the system e isso, ao mesmo tempo que paga um cheque de um milhão de dólares a um arquitecto para que este desenvolva o projecto da construção de uma fabulosa vivenda em Beverly Hills, ou seja lá onde o grunho vive.

12/07/2010

a vitória do tédio.


Em Abril último, a selecção espanhola de futebol defrontou nos quartos de final da Champions aquela que seria, à priori, a única equipa que estaria em condições de a puder igualar na sua maior arma: infinita posse de bola. Essa equipa chamava-se Arsenal, e nesses dois jogos existiram, pelo menos, três situações em que a equipa "inglesa" conseguiu realizar três passes seguidos, para gáudio de Wenger. Três meses depois, o Barcelona ganha o campeonato do mundo da bola da mesma maneira: possuir o esférico como se o Dennis Hopper estivesse ao telefone, a 500 klms de distância, a indicar ao Del Bosque que se por acaso não se trocarem quatro mil trocas de bola consecutivas aquela explodirá em mil papelinhos. Os adversários, chamem-se Portugal, Alemanha, Holanda, ou Samoa, limitam-se a ver a banda passar e a esperar por qualquer deslize daquele meio campo de anões e de uma defesa constituída por um troglodita, um homossexual (o melhor central do mundo, o que prova que as discriminações sexuais são prejudiciais ao próprio interesse nacional), e um Casillas. E assim se constrói uma equipa que transforma todo e qualquer jogo num concerto unidimensional, de uma chatice sem fim, de um desejo de perfeição sobre-humana (aposto que se o Xavi ultrapassasse o guarda redes e ficasse com a baliza deserta, parava então a bola na linha de golo, voltava para trás e passava para o Iniesta), para deleite dos "amantes do bom futebol", dos Cruyffs, dos Valdanos (esses gurus do "bom futebol" e que já deveriam estar a planar no espaço há pelo menos quinze anos) e claro, dos adeptos do Barcelona. Quanto a mim, prefiro mil vezes um Alemanha-Uruguai, jogo de mil erros, de desfasamentos posicionais, de remates à baliza e de pessoas de carne e osso. Puta que pariu mais o Robben.

21/06/2010

o bazar da "história do cinema".



Stagecoach é um rico catálogo de memorabilia cinematográfica, um best of das mais belas cenas da história do cinema, desde o zoom mata-cavalos na direcção de Ringo Kid, até à gentil perseguição na cerca, passando por um extraodinário interlúdio onde nada se passa, quando, silenciosamente, a câmara ronda os personagens no interior da carruagem, e que culmina naquela singela e elucidativa troca de olhares entre Trevor e Wayne. Mas o ainda mais impressionante acontece na perseguição dos Apaches ao Homem Civilizado. Como diria mestre Mourinho, em condições normais é a melhor sequência de acção do cinema norte-americano. E em condições anormais também. Ajuda a paisagem, um deserto livre de empecilhos paisagísticos que abafem a clareza da dramaturgia, mas qualquer um dos irmãos Scott seria capaz, com todo o brio, de destruir um filme, mesmo com essa vantagem pelo seu lado. Essa meia dúzia de minutos é um legado de Ford à Humanidade, o de que por mais planos e ângulos que se usem ( e o picado sobre os cavalos? Jasus senhor) o objectivo passa sempre por dar a ver, sem a tentação de ai ai, agora vem aquela parte dos caos, deixa-me ir apanhar parkinson com a minha avó, volto daqui a duas semanas, quando já 'tiver infectado, e depois já posso ser o operador de câmara nesta cena de caos e violência, há que mostrar o caos, há que ser caótico. E também uma prova de que a dimensão temporal não está em linha recta, do passado para o futuro, antes revolvendo-se em diversas amplitudes que escapam à compreensão humana, daí, clara e obviamente, esta sequência ter sido a influência decisiva para as escadas de Odessa de Eisenstein. Não deixemos de notar, no entanto, que Ford também foi beber a outrem, nomeadamente a Cameron do Terminator 2.

eram os anos 80 (2).



É do senso comum que , na infância, existem duas etapas cognitivas: uma de formação e aprendizagem e uma outra em que se começa a ler Dos Passos e Adorno. Assim, para quem tenha nascido em finais de setentas e inícios de oitentas, depois de uma breve (até aos cinco, seis anos, digamos) passagem por narrativas light, como os Transformers, a Heidi, o Verano Azul, o Conan, a A Abelha Maia, ou o Duarte e Companhia, seguiu-se a todo o vapor a entrada nas delícias de Godard, Resnais, Eisenstein, Brakhage, Proust, Foucault e John Cage. Contudo, algum ou outro imbecil decidiu, na transição, permanecer num limbo espiritual, não recuando nem avançando (nm atacando, como diria um jornal desportivo) um milímetro. Foram os anos Bocas, Van Damme, Stallone, Schwarzie, Michael Dudikoff e Karate Kid. Numa iniciativa paralela à programação do senhor António Rodrigues, o autor deste blogue, que gosta de se vestir de mulher ao Domingo, decidiu realizar uma contra-programação, em local e data incertos. Estão todos convidados. Aí vai:

1- Programação integral do O Bocas.
2- Cyborg, de Albert Pyun
3- Red Scorpion, de Joseph Zito
4- Rambo III, Peter MacDonald
5- BloodSport, Newt Arnold (agora todos: Kumite! Kumite! Kumite!))
6- Karate Kid I, II, III, John G. Avildsen
7- Rocky IV, Stallone
8- Best of the Best, Robert Radler
9- Kickboxer, Mark Di Salle / David Worth
10- Red Heat, Walter Hill
11- Commando, Mark L. Lester
12- Lone Wolf Mcquade, Steve Carver
13- Action Jackson, Craig R. Baxley
14- Lock Up, John Flynn
15- The Gods must be Crazy II, Jamie Uys
16- Halloween III, Tommy Lee Wallace
17- American Ninja 2, Sam Firstenberg
18- Streets of Fire, Walter Hill
19- Road House, Rowdy Herrington
20- Murphy's Law, J. Lee Thompson

Após a exibição de cada filme, iremos todos para uma cabana a improvisar o Frágil dos anos 80, onde trataremos de reconstruir a cena do Frágil dos anos 80, isto é, enrabamo-nos uns aos outros enquanto ouvimos Joy Division e Soft Cell e discutimos performance art. Acabada a festa, queixemo-nos dos novos tempos, e derramemos lágrimas de uma insidiosa nostalgia, como está patente neste artigo a pingar um subtil aroma a reaccionarismo por todos os poros. Podem chamar-me Lúcia, enquanto me comem.

eram os anos 80 (1).






É ilusão e ignorância minha, ou no ciclo de cinema "eram os anos 80", da Cinemateca, não há um lugarzinho, nem que seja ao canto, para o John Carpenter? Será que, tal como em relação a Spielberg, a ausência de John deve-se a uma mera escolha pessoal do senhor António Rodrigues, que também não o deverá achar muito interessante, para além de não saber contar histórias, algo que o cinema americano perdeu a capacidade...(bocejo) ? Será que Carpenter encaixa nos extremos do cinema popular e no de autor mais à margem, dois estilos que o senhor Rodrigues queria evitar estarem representados? Será que tudo não passa apenas de um lapso casual, já que o senhor António, em vez de estar a prestar atenção aos autores que deveria seleccionar, estava a cortar cabeças de peixes e de morcegos e a deixar regar o sangue para uma tigela, onde aí juntaria três cebolas e um iogurte Danone, numa poderosíssima conjuração de Spielberg, que mal se materializasse levaria com um barrote nos costados? É obra. Robert Altman? Cum caralho. Vou é ver o resumo da Itália, para adormecer.

jogos mais ou menos inesquecíveis de certos Mundiais-7


Nestes tempos de Planos de Austeridade, chips nos automóveis, comissões de inquérito e restante lixeira para nos foder o bolso, a privacidade e o juízo, ainda é no futebol que se pode encontrar algum alívio humorístico. Como aquele praticado pelas capas dos "jornais desportivos", que de há tempos para cá arranjaram novos termos: agora jogador tal já não está "preso por detalhes" para se transferir para tal clube, não não, agora o clube tal "avança" por jogador tal, e "ataca" jogador tal. Se não "avança", "ataca", e se não "ataca", "avança". E então, logo pela manhã, o Zé Povinho sai apressado da cama, aproveita para derreter a mulher à porrada, porque o café estava frio, e sai para a rua, onde encontra o quiosque do shôr Manel, que lhe diz que hoje o seu clube não avançou nem atacou ninguém, por isso não gaste aqui os seus trocos, guarde-os para comprar pão, que dele bem precisará nos próximos meses. E o Zé lá volta a casa, desgostoso pelo seu clube não ter atacado nem avançado por ninguém, e decide então avançar para e atacar a sua mulher, que mal refeita do enxerto anterior, leva mais um baile de socaria. O outro humor bem interessante tem a ver com algumas previsões pré-Mundial, na qual, imagine-se, alguns analistas projectavam a Inglaterra como uma (senão a) das favoritas a ganhar a taça. Leu bem, caro leitor: a Inglaterra. Aquela equipa de jogadores semi-embriagados, de barriga cheia pelas coxas de frango frito que comem dez minutos antes do jogo começar, de sujeitos que quando juntos (sem a benigna influência da civilização europeia dada pelos Wengers, pelos Mourinhos, pelos Hiddinks, etc) transformam-se num adversário perigosíssimo...para o Butão. O virus da mediocridade é tão poderoso que mesmo os três únicos jogadores de futebol que por ali andam (Rooney, Lampard e Terry- não, aquele touro com cérebro de ervilha que joga no Liverpool não entra nestas contas) teriam de prestar provas ao Vilafranquense se por lá passassem agora. Dizem que ainda podem ganhar o Mundial. Pois podem. A Coreia do Norte também. Mas deixemos de falar da selecção inglesa, e abordemos o futebol. Da Alemanha, em concreto. Agora que voltou a ter, pelo menos, quatro jogadores (cinco, já que o Ozil vale por dois) que conseguem encarar uma bola de futebol como uma amiga e não como um mero dispositivo mecânico cuja função é ser vergastado com electricidade proveniente da energia neuronal, nada melhor do que recordar um tempo em que a Alemanha ainda tinha quatro jogadores, pelo menos, que conseguiam encarar uma bola de futebol como uma amiga, mas que devido ao cansaço acumulado por cerca de milhares de jogos em conjunto, já a tratavam como um mero dispositivo mecânico cuja função era ser vergastado com electricidade proveniente da energia neuronal. A Alemanha do Mundial-94 era uma selecção a que os "jornalistas" desportivos de agora classificam como estando em "fim de ciclo". Matthaus, Buchwald, Moller, Kohler, Voller, uma miríade de magnífcos que já vinha desde o Mundial de 1954, uma máquina que já deixava entrever fios cheios de ferrugem e um cheiro a enxofre que nem se podia. Era o fim de festa de uma geração, um espectáculo tão decadente como o baile de nazis paneleiros do The Damned viscontiano. Depois de tanto futebol insosso, chegaram aos quartos e foram para o caralho das budweisers, graças a um golo do Stoichkov e a uma cabeçada furiosa de Letchkov, o gajo mais parecido com aquele tipo que no Ed Wood tenta passar pelo Bela Lugosi, sim esse, o do braço a tapar a cara. Uma desgraça, pois nesse Alemanha-Bulgária de 10 de Julho de 1994, a casa estava, novamente, a abarrotar de familiares, que não gostavam da Alemanha, porque eram todos nazis e muito maus, e por isso gritaram os golos búlgaros como se fossem do Brasil, ou mesmo de Portugal. E a mim só me faltou chorar, porque a Alemanha foi a selecção que decidi apoiar entre 1990 e 1996, baseado não sei em quê, e nem o Kostadinov no outro lado poderia impedir esse facto. E pronto.

Próximo: Brasil-Holanda ou o ciclo dos dez anos.

06/06/2010

Stroheim, uma das referências para os jeunes cinéastes.



Evidente, miss Swanson. É na sequência africana que o allure e o divertimento são substituídos pela depravação (uma língua a percorrer os lábios), pelo Mal (duas órbitas negras no lugar dos olhos), pela deformação física, por putas oportunistas, pelo negócio e pela avidez, matéria mais do que familiar a quem a estava a filmar. Não admira, então, que tenha despedido o amável Stroheim quando reparou que os jogos florais de Queen Kelly não iriam continuar por muito mais tempo. Quando isso sucedeu, Erich ficou feliz da vida, porque tinha apostado 1000 dólares com um amigo em como, pela 35ª vez, iria ser despedido de um trabalho, posteriormente retalhado de acordo com os desejos da estrela, protegida pelo dinheiro do produtor e seu amante, Joseph Kennedy, pai do John. A versão Swanson é, possivelmente, uma bosta sem remédio. A versão mais próxima da pretendida por Stroheim, distribuída e estreada em 1985 pela Kino- com a ajuda de fotogramas-, é rotina na primeira parte (embora com alguns dos mais belos inserts já vistos), e um esplendor de podridão e medo na segunda. Bem feita para a Gloria, que iniciaria aqui o período descendente da sua carreira, uma óptima notícia, pois assim talvez nunca tivesse havido Sunset Boulevard para ninguém, nem Stroheim mordomo para ninguém, nem isso tudo. Pouco mudou ao fim de oitenta anos, pois as estrelas, sempre preocupadas com a sua persona filmica, já andam cagadas de medo com os efeitos que o digital poderá ter na apresentação das suas trombas, daí contratando os melhores maquilhadores e exigindo meio Walter Murch em cada pós-produção. E assim acaba a nossa lição de hoje.

escutas.


Comentador Vasconcelos (CV): Estou? Maria João Seixas (MJS): Estou? CV: Estou? Hugo Gilberto? MJS: Não, não. Daqui fala a presidente da Cinemateca. CV: Ah sim...boa tarde. Que deseja?
MJS: Olhe, primeiro que tudo, quero felicitá-lo pela sua adaptação televisiva do Equador, do Sousa Tavares. Muito bonito. Segundo, vai haver aqui uma projecção de um filme de um tal de Monteiro e de seguida um debate. Estive a ver a lista dos convidados e não o encontrei a si, que me disseram que esteve envolvido na produção e realização do filme do tal de Monteiro. Disseram-me que estava zangado connosco. Então porquê?
CV: Porque foram maus para mim.
MJS: Eu não. Isso são águas passadas. Não quer vir cá? Ficaria muito contente, como de certo alguns dos seus colegas, como um tal de Costa.
CV: Não, não vou. MJS: Mas vai ter bolinhos. CV: Não vou. MJS: E vinho. CV: Não vou. MJS: E batatas fritas de pacote.
CV: Não vou. MJS: E espectáculo de luz e cor. CV: Não vou. MJS: E o João Botelho.
CV: Não vou, não vou, não vou. Foram maus para mim. Não me ligaram pêvas. Nem que estivesse aí o maior realizador vivo, o Jason Reitman, eu iria.
MJS: E mulheres nuas. CV: Hum...sério? Quem? MJS: Estava a brincar. Assim já vinha, não era? CV: Não... não. Só com o Reitman.
MJS: Pronto, pronto, não insisto. ( Como background sonoro, uma delicada voz de poeta, perguntando: Alguém quer ser meu amigo?). Não fico zangada consigo por isto, até porque aquela sua adaptação de o O Delfim estava maravilhosa. Muito bonito. E felicidades também para a sua filha. Adoro aqueles estendais nas pontes e os bidons de prata.
CV: Não é minha filha. MJS: Não? Felicidades para ela, na mesma. Boa tarde e adeus. CV: Boa tarde.

...e não consegui demovê-lo: ele não veio.

Depois de desligar o telefone, Comentador deslocou-se para a sua secretária, por cima da qual encontrava-se uma folha A4 rabiscada com pequenas notas a vermelho:

Próxima película: mamas-Soraia-50 planos decote-Soraia-150 planos rabo-Soraia-25 planos (2 close ups) lábios com baton-Soraia-65 planos Nicolau Breyner-700 planos influências-referir-conferências. imprensa- Buñuel, Sirk, Reitman

Na parede em frente, dois posters cinematográficos gigantescos, ambos edição original: Jules e Jim e Pátio das Cantigas, este com dedicatória do Cardeal Cerejeira. Comentador elevou a cabeça, suspirou, recostou-se na cadeira, colocou as mãos atrás da cabeça, e disse: Querem dobrar-me, não é? Eu mostro-lhes, eu mostro-lhes como é.

jogos mais ou menos inesquecíveis de certos Mundiais-6.


Uma mera reminiscência aconselha-me a escrever que o Argentina-Roménia, dos oitavos-de-final do Mundial-94, foi o melhor jogo que já vi nas copas. Uma vez mais, já pouco ou nada me lembro dele, a não ser que o Radociou marcou um ou dois golos, que estava um dia solarengo e que estavam dois Maradonas no estádio, um na bancada e o outro no relvado, prova irrefutável do obsoletismo de uma certa teoria da natureza física, a de que o mesmo corpo sólido não pode ocupar duas áreas de espaço diferente ao mesmo tempo. O primeiro Maradona estava na bancada, a chorar como uma criança, porque dias antes do jogo tinha acusado uma coisa chamada nefredina ou quejandos, uma substância que o ajudava a não ter alucinações, como por exemplo confundir a bola de couro com uma bola de coca, como aquelas que o Ray Liotta mete no saco, no Goodfellas, mas em tamanho XXL. O segundo Maradona espalhava a "magia do futebol" por aquilo a que alguns, com pudor, chamavam "relvado", mas que na verdade eram random leaves apanhadas nas pradarias do Kansas, bastamente cortadas, ficando com apenas um metro de altura. O primeiro Maradona, depois do jogo, ou antes, já não me lembro, afirmou numa conferência de imprensa que jurava pelas alma das suas filhas que jamais tinha tomado a tal da nefredina. Pior seria se tivesse dito "que caia já um rinoceronte em cima da minha Gianina se estou a faltar à verdade!", pois neste momento o Aguero andaria amantizado com o Quique. O segundo Maradona, aos vinte e nove anos, atingia o cume da carreira, bem como a Roménia, que nem antes nem depois voltaria a fazer igual (perderia com os suecos, nos quartos, com provavelmente algum golo do Kennet Andersson, um tipo que festejava os golos com os dois indicadores a fazer de pistolas). O primeiro Maradona acabava de vez com a sua já triste vida nos relvados, enveredando por um novo desporto: tiro aos jornalistas. Tal como George Lucas continua afastado do cinema desde 1971, também o primeiro Maradona julga que ainda permanece no ambiente da bola. Em ambos os casos, alguém que tenha a piedade de elucidar os dois senhores. O segundo Maradona, até 2006 ou 2007, foi a principal referência internacional da Roménia, a par dos ciganos que andam pelo metro a vender pensos e de muletas, que mal largam quando saem da carruagem.

Próximo: Alemanha-Bulgária ou o Bela Lugosi marcou um golo.

31/05/2010

a sopa de Porumboiu.


Sons de passos, de passarinhos, de pneus no asfalto, de sopa a ser sorvida, de uma passa no cigarro. Respeitar a existência dos Sons e a existência da Vidinha de todos os dias. Depois, muito lá ao fundo, parece que existe uma coisa qualquer que envolve uma investigação policial sobre putos que consomem haxixe. Ainda lá mais para trás, na minha ordem de prioridades, há uma cena (resumida praticamente a um plano fixo de um bom quarto de hora-Porumboiu é um mestre do enquadramento) onde se expõe o poder ditactorial da Palavra sobre a realidade: é a indispensável caução, a senha de entrada para o debate e para o reconhecimento internacional, e ai de quem não a tiver, pois assim o Mourinha (o crítico de cinema preferido de quem não gosta de críticos de cinema) ficava sem massa para fazer os seus resumos sociológicos dos filmes. Politist, adjectiv é o paraíso: estabelece o mínimo dos plots (não vá alguém perder-se), e depois esburaca-o todo com silêncios, gajos encostados a postes durante cinco minutos, perseguições à Lisandro Alonso e a sopa a ser sorvida. Não me canso de falar na sopa. Realizador que dispense um minuto para filmar um tipo a comer uma gamela de sopa terá sempre o meu respeito. E também por causa de não ter o dedo leve no "extract" do Avid ou do Adobe Premiere. O filme de Porumboiu entra directamente na categoria "filmes do caralhão". Aquelas canjas de galinha de pacote do Pingo Doce não são más de todo.

melhor filme de 2010.


...nem que apenas fosse pelo Gabin, pelo putedo, pelo vinho e as côdeas de pão, e pela fragrância a bosta de animal e a feno.

jogos mais ou menos inesquecíveis de certos mundiais-5


Durante dois Mundiais, o de 94 e o de 98, a selecção brasileira era a minha dor no estômago, a minha pedra no sapato, o meu clister. Como Portugal num Mundial era uma miragem (e agora os mais petizes perguntam: era mextre? Protugal nunca ia aus Mundialex? Era, minha querida pita com uma vuvuzela dentro da pachacha com a imagem do Ronaldo na mente e caro pitozito analfabeto divagando com a irmã de vuvuzela enfiada na pássara enquanto pensa no Ronaldo com os biceps escancarados (vergonhosa a promiscuidade sexual desta juventude)), o povo português, ou o que eu conhecia, tratava de apoiar o Brasil. Por causa da língua e das telenovelas e essas coisas. E é óbvio: se dizem branco, eu digo preto, e se dizem cinzento eu digo preto-e-branco. Portanto, o clister brasileiro atingiu o zénite no dia 4 de Julho de 1994, dia de Brasil-EUA dos oitavos de final e dia do aniversário da irmã, com a casa a abarrotar de familiares a puxar pela brasucada, com a notável excepção de duas pessoas. A outra era o meu pai. Algumas coisas sobre ele: considera Fidel Castro a pessoa mais importante do Século XX (e XXI , mesmo em estado comatoso), o Zeca Afonso o melhor cantor português de todos os tempos, cospe grosserias contra os israelitas, se lhe falam do Estaline ele responde "sim, fez algumas coisas mal, mas...", o Stallone e em especial o Rocky IV são a pura encarnação do Mal, arranja sempre alguma obscura justificação para o terrorismo dos símios muçulmanos, e é claro, como consequência lógica da invertebrada cassete vermelha, não suporta o que os E.U.A representam. Deve ser por isso que o filme preferido dele é o Apocalypse Now. Ou isso ou por causa do Brando, o melhor actor de todos os tempos, como contraponto ao Wayne, esse canastrão reaccionário ao serviço do imperialismo. Mas superior ao seu asco contra os amaricanos, era a úlcera cerebral que lhe dava sempre que um país do terceiro mundo (na altura) esquecia as condições em que vivia para entrar num delírio colectivo provocado pela bola. O Brasil tem de perder. O povo brasileiro tem de se esquecer disto, de voltar ás suas vidas, de se insurgir contra os problemas, de exigir melhores condições de vida, de enviar para cá a Bruna Lombardi, etc. Vai daí, nesse Brasil-EUA, viu-o transformado em Roosevelt de bigode, em redneck do cu da Europa, a puxar por jogadores que dois dias antes da competição começar tinham visto o Fuga para a Vitória, do Huston, como introdução ás regras do jogo. O Brad Friedel (não confundir com o Brad Fiedel, que compôs as b.s. dos Terminators do Cameron e do True Lies do Cameron), que é o guarda redes actual e penso que já o era na altura, disse ao Alexis Lalas, o ex-líbris da selecção com visual de roadie dos ZZTOP, o seguinte: posso defender aquela coisa cilíndrica com as mãos? O Brasil jogava muito. Não era o Brasil que os brasileiros ou os românticos da bola desejavam (sambinha e circo), mas era uma equipa de futebol: raramente perdiam a bola, trocavam-na com paciência e depois tinham o Romário e o Bebeto, que marcaria o golo contra os amaricanos, que nesse jogo, segundo me recordo, conseguiram fazer um remate à baliza do Tafarel, através de um pontapé de baliza do Friedel. Como prémio pelo tetra, o Parreira foi despedido. Quanto à minha dor de estômago, lá foi passando, transferida para o pesadelo scolariano, felizmente terminado, dando origem ao período quirosiano, um pesadelo para a maioria dos benfiquistas e dos sportinguistas, logo um motivo mais do que especial para eu apoiar, condicional e mesquinhamente, a "selecção de todos nós". Amanhã compro uma corneta e a bandeira.

Próximo: Argentina- Roménia ou o Raducioiu 'tá cada vez mais parecido com a minha tia Rosa.

25/05/2010

é a degenerescência. é a diluição das fronteiras do bem e do mal. é a "liberdade". é uma moça sem cuecas.



O velho Hawks, no seu modesto pragmatismo, dizia que bastavam umas três cenas boas e nenhumas más para que um filme tivesse qualidade. O filme do Herzog tem duas bastante boas (vide). O resto não é mau. Nem bom. Antes pelo contrário. Pior que o academismo de regra e esquadro de alguns produtos, só mesmo a aura celebratória da "liberdade" e do "caos" que é atribuída a outros. Ó Herzog, volta pós ursos e pá floresta.

24/05/2010

City On Fire.


Andava o Tarantino a aconselhar à arma o À Bout de Soufle aos seus clientes no clube de vídeo, e já o Ringo Lam colocava três sujeitos a apontar revólveres uns aos outros. Andava o Lam a descobrir a maravilhosa ocidentalização de Hong-Kong, e já fazia tijolo há quatrocentos anos o William Shakespeare. Andava o Shakespeare a escolher quais as collants que o tornavam mais elegante e a pedir que o tratassem por "Raquel", e já estava carcomida a carapaça do Aristóteles, que dois mil anos antes revoltava-se contra a paneleirice dos deux-ex-machinas e escrevia, enquanto fazia festas na perna de um menino de sete anos, vamos lá resolver esta merda em três actos. E por aí. Parece que o Tarantino não mencionou a escandalosa influência de City On Fire, obra-prima de Lam, na sua não tão obra-prima de abertura, Reservoir Dogs. Bom, a Taratino perdoa-se tudo, mesmo quando mete o Kurt Russel a ser sovado por três rebarbadas por berbigão. O furioso imediatismo de City On Fire encontra-se logo no título: tudo é explosivo, excessivo, de golpes palacianos movidos a gasolina de montagem ultra-rápida (quero um filme rápido! com explosão!-ler isto com sotaque de nigga de Queluz) e sequências de pancadaria com a indispensável musicalidade. E Chow Yun Fat, reminiscente das pantominas do Vaudeville e precursor do grande Jim Carrey, antes de se tornar na porcaria amestrada de Hollywood. E os sintetizadores dos anos oitenta. Nos EUa, pela mesma altura, o policial estava entregue ao Richard Donner e ao Mel Gibson.

também se aplica ao Von Trier ou ao Moore.

Pela primeira vez em trinta e um anos de mais ou menos vida, assinei uma petição. A favor da libertação de um homem cujo crime, segundo o regime de atrasados mentais-filhos da puta-incultos-teólogos (eufemismo, em islâmico, para assassino)-macacos-grunhadores medievais que o prendeu, é ter tido a ousadia de tencionar fazer um filme. Bem ao estilo Orwelliano. E puta que pariu para quem olha com simpatia para estes regimes simiescos, só porque, coitadinhos, fazem frente aos malvados dos amaricanos imperialistas! Os mártires.

jogos mais ou menos inesquecíveis de certos Mundiais-4


No segundo período do 9º ano, tive sete negativas. Ou sete negas, como se dizia na altura, ou como se diz ainda hoje, não sei, acho que Richelieu ainda maquinava na última vez que falei com um puto de quinze anos. A par do Miguel Ângelo, fui o pior aluno da turma. E dos piores da escola. O Miguel Ângelo era um preto que imitava na perfeição outro imitador preto, o Jones da Police Academy. Uma vez levei-o à minha casa para que ele visse as partes de foda do Once Upon a Time in America. Em 1995 abandonou a escola e ingressou numa banda filarmónica. Vi-o dois anos depois e continuava preto. Espantoso mesmo é que no terceiro período tive zero (0) negativas, ou zero (0) negas. Avisaram-me que se não me metesse ao trabalho não haveria Mundial-94 para ninguém, nem praia para ninguém, nem mamonas da Inês para ninguém. O fim do mundo. Perder o Mundial-94! Fiz-me à vida, obviamente. Ia lá passar ao lado do Mundial dos jogos novamente a torrarem ao Sol (como no México), e do Romário, e do Kostadinov, o melhor jogador do universo em 1994. Um Mundial que começou logo muitíssimo bem antes mesmo do seu começo, com a ausência da Inglaterra, algo que provocou prejuízos avultados nas indústrias da charcutaria, do aviário, da cerveja, do protector solar e no The Sun, que viu reduzidas as suas hipóteses de exportar a página 3. Tendo sido, até hoje, o Mundial de que mais jogos vi e o a que mais atenção prestei, incluindo um Arábia Saudita-Bélgica, nada melhor do que recordar um dos que não vi mas que me fez ser mais gozado do que se o FCP tivesse perdido, nas Antas, com o Cartaxo, o Marialvas ou o Benfica. Nigéria-Bulgária, jogo inaugural de um grupo qualquer. A Bulgária tinha o Kostadinov. A Bulgária era o FCP. Andavam também por lá alguns jogadores um tanto ou quanto talentosos, como o Stoitchkov, o Balakov, o Pandev (outro), o Ivanov (o Lon Chaney da cortina de ferro) mas era o FCP. E jogavam de vermelho, verde e branco, mas era o FCP. E dias antes do jogo já andava eu, pelos corredores da escola, a falar no plural: vamos mandar a pretalhada para casa com quatro no bucho. A confiança era tanta que nem me ralei muito por não ver o jogo, que deu para aí ás duas da manhã, pois no dia a seguir tinha lugar um importantíssimo teste de Educação Visual. De manhã, enquanto enfardava Chocapics ou Estrelitas, ouvia a rádio: O 1º ministro Cavaco Silva anuncia intenção de disparar morteiros a quem, num futuro próximo, fizer algazarra na ponte 25 de Abril, Uma empresa informática norte-americana, Microsoft, apresta-se a lançar no mercado uma cena chamada sistema operativo, No mundial dos Estados Unidos, a Nigéria venceu a Bulgária por 3-0, com os golos de Amuneke, Yekini, Okocha, Amokachi, Finidi e Abacaxi a ditarem o resultado. Devo ter cuspido as estrelitas para a santa cona do assobio. Quando cheguei à escola, apalpei o terreno. Aqueles fardos de palha westernianos ondulavam ao som do assobio ventoso. Lá vinham eles. A cuspirem injúrias e gozações, os benfiquistas. Ainda procurei auxílio consolador num sportinguista, mas qual Pedro, renegou-me três vezes. Felizmente, a partir daí, o FCP só me daria alegrias, até ao jogo com a Alamenha. Quanto à Nigéria, seria afastada nos oitavos de final pelo Roberto Baggio, ou como também era conhecido na altura, "Itália".

Próximo: Brasil-EUA ou god bless the 4th of July.

20/05/2010

travestimos literários e escaravelhos com espadas.



Li o Time Machine, de H.G. Wells, num par de horas. Quando acabei, fui até à casa de banho. Ia cortar o bigode, mas reparei que as gilletes descartáveis do Pingo Doce estavam mais gastas que o cérebro da Miley Cirus. Liguei o pc. Coloquei a sacar Time Machine, a adaptação fílmica. Meia hora depois estava pronto. Uma hora e meia depois estava visto. O livro é um brilhante representante do género travestismo literário: um mcguffin (uma viagem no tempo até ao ano 800.000 e tal, data de estreia do Vale Abraão 2) como combustão para um ideal. Furiosamente político, como todos. O filme é apenas a superfície. A apropriação do mcguffin. A aventurazinha agradável. Visualiza quase na perfeição a ambiência dos decors saída da tola de Wells e acrescenta uma pitada de sal humorístico, mas nada de mais. Este nada de mais já não é mau de todo.

Outro clássico da FC dos idos de sessenta é Quatermass and the Pit. Também com origem livresca. Não li. Preferi visitar as páginas de um Herberto Helder qualquer. Quando cheguei ao segundo verso reparei que já tinham passado oito horas desde que tinha acabado de ler o primeiro. Quatermass and the Pit aborda coisas muito sérias: os primórdios da Humanidade, o metro de Londres e exércitos de escaravelhos hipnotizadores. E efeitos visuais comprados na loja dos chineses. Como não simpatizar com estes filmes que almejam debater questões ambiciosas e que depois os embrulham em pirotecnia de fazer rir um Professsor Medina Carreira? Como não gostar das expressões seríssimas das personagens quando à sua volta ocorrem explosões que parecem mais inofensivas que dois estalidos de duas bombitas de Carnaval? E, por amor de Deus, como não apreciar uma obra onde metade da população de Londres é transformada em papel vegetal? Estreasse hoje e chegaria aos Oscares. Como o District 9.

jogos mais ou menos inesquecíveis de certos Mundiais-3


E se no Itália-90 a Argentina era a escolha da criançada, o equipamento mais desejado para envergar na rua e fazer inveja aos outros era o da Alemanha. Por isto, surgiram contradições sartrianas no dia da final, quando sujeitos com a mannschaft colada ao corpo gritavam a plenos pulmões "rebenta-os em três, Dieguito!". Fundo branco percorrido por três listas na diagonal. Gosto pela estética minimalista? Respeito e homenagem pela reunificação iminente? Nunca cheguei a saber, até porque o gajo que mais o usava, que desgraçadamente não me alembra agora o nome, jamais deu resposta para esse mistério da vida. Em vez disso, mandou-me uma pedra aos cornos, quando uma vez na praia lhe roubei a bola. Anyway, Alemanha-Holanda, oitavos-de-final. Ou Inter de Milão-Milan, se se preferir. Brehme, Matthaus e Klinsmann de um lado. Gullit, Van Basten e Rijkaard (os três melhores do mundo) do outro. Derby europeu de memórias e motivos extra-futebolísticos. Derby local. A Holanda, campeã europeia dois anos antes, chegava até este jogo a jogar à Santa Clara. Tinham trocado um treinador de futebol, Rinus Michels, por um Leo Beenhakker, um tipo que nos anos setenta, provavelmente, terá pertencido a uma banda glam. Eram os favoritos à conquista do ceptro, mas entretanto, na véspera da partida para a Bota, o ex-cantor de Glam deu autorização aos seus jogadores para passarem umas horas divertidas pela zona turística de Amesterdão. No primeiro treino, o Rijkaard perguntou ao Van Basten como é que ele se chamava e tentou trincar a bola. Não espanta, por isso, que tenham levado uma tareia dos rivais, perdão, dos inimigos. Uma tareia futebolística sem apelo nem agravo, como ficou comprovado pelo score (2-1). Eu escrevo tareia, mas não faço ideia se tal tenha acontecido exactamente assim. Estes posts têm apenas um critério: respeitar recordações e impressões fragmentadas de certos jogos e de algumas coisas a eles associados, num certo tempo e espaço. Se aparecer por aqui alguma mentira, que se foda. Já o outro dizia que a lenda era muito mais interessante que a realidade. Por exemplo, neste momento exacto não faço a mínima de quem marcou os golos. Voller? Klinsmann? O Guido Buchwald, que nos tempos livres era o baixista dos Def Leppard? Ou o Wouters, que mais parecia um daqueles rednecks, que passa o tempo na mesa de bilhar e sempre com a bejeca na palma da mão? Estas informações seminais encontram-se à distância de um ou dois cliques. O que não precisa de clique para me informar é a escarra do Rijkard. Em cheio nas trombas do Voller. O Voller também foi expulso, pois ao que parece tinha dito ao Frank, nas barbas do árbitro, que foi pena não vos termos mandado para debaixo de água. Todos. Mulheres, crianças, velhinhos. Putas. Todos. O árbitro tinha um daqueles aparelhos que se usam na ONU, como a Nicole Kidman no The Interpreter, um Pollack menor, mas sempre mais interessante do que um pintelho amarelecido da Campion. A Holanda voltava a falhar nova final mundialista. Já lá vão trinta e dois anos, desde aquele em que o General Vilela via os jogos , na tribuna presidencial, com um contador no regaço, e que o ia informando em tempo real sobre o número de desaparecidos: 30, 40, 456, 7.000, 34.000...A Alemanha faria o Tri. Seria a última vez que teria mais do que quatro jogadores juntos a saber driblar. Klinsmann (51), Brehme (84), Koeman (89).

Próximo. Nigéria- Bulgária ou como ser gozado durante um dia inteiro por algo que não se viu.

14/05/2010

tags: Joana Amaral Dias, punheta.


A Joana Amaral dias, aquando da estreia de Zodiac, questionava, num dos seus blogos, a necessidade e a validade de se fazer um filme que não dava respostas nem conclusões. Eles foram maus. Eu à espera de saber quem era o bandido e nada feito. Isso não se faz. Sou tão boa. Assim, não se recomenda à miss o visionamento de Memories of Murder, a segunda e genial obra de Bong Joon-ho, um tipo que é das melhores coisas que andam por aí à solta. Sem a épica dilatação temporal do filme de Fincher, Memories... contém igualmente aquela obsessão nervosa de personagens e espectador em visualizar um rosto, uma prova do Mal. Mas contrariamente ao procedural sorumbático de Zodiac, Bong abarca a vida: non-sense, suspense magistral (nunca uma punheta teve tanta importância), drama familiar, irrisão e caricatura das convenções americanas do thriller. Confirma-se, já antes de The Host, que Bong domina como poucos a subtil detonação dos alicerces do género sem os destruir por completo. Espanto. Bong John-ho é um mister.
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