29/12/2008

gelado #177


Santo 2009.

gelado #176

1. There Will Be Blood
2. Le Voyage du ballon rouge
3. 4 luni, 3 saptamâni si 2 zile
4. Coeurs
5. We Own the Night
6. Gomorra
7. La Graine et le mulet
8. Les Amours d' Astrée et de Celadon
9. The Mist
10. Before the Devil Knows You're Dead

27/12/2008

gelado #175


A angústia do soldado no momento do fuzilamento. As habituais balelas reconfortantes do senhor vigário, prometendo o paraíso e demais luxos espirituais. Fora de Campo, a perturbação dos carrascos e a soberba dos canalhas dos patriotas, passe a redundância. E muito antes de se chegar a esse plano desta sequência, há o magistral uso do travelling como técnica de criar ansiedade e tensão nos meus costados. Planos longos, acção em "tempo real", uma comovente caminhada para a morte. Que "frio" e "calculista" e "cerebral" o homem era, pá. Aliás, se forem agora abrir a sua campa, não encontrarão por lá ossos, mas sim um endoesqueleto de metal, como o do Terminator. Fabuloso Paths of Glory.

gelado #174

1) Há dias, um assalto, no telejornal, foi musicado com "música da pesada", como dizem os antigos. O tele-espectador, eufemismo para tele-bovino, não pode ser poupado ao mais pequeno assalto pseudo-sensorial, sob pena de, calamidade, não reagir emocionalmente à piquena narrativa televisivazinha. Fideputas.

2) Há dias, apanhei na tv uma cena de uma qualquer série em que o James Woods distribuía indicações e palpites policiais aos seus ajudantes e estes respondiam-lhe com uma hilariante solenidade, algures entre o registo autómato e uma austeridade de pechisbeque. Na ficção televisiva há um impressionante medo da realidade e dos seus tempos mortos. Fideputas.

3) Há muito milhares de dias, mais especificamente a 1 de Agosto de 1936, aconteceu não só a sessão inaugural dos jogos do Sr. Hitler como a sessão experimental da maior inutilidade e do maior monte de merda tecnológico que a Humanidade ofereceu a si própria. Fideputas.

24/12/2008

gelado #173


Santo Natal.

gelado #172



É necessária uma luta tenaz para resistir à graça manipuladora de "Miracle on the 34th Street", mesmo com a providencial ajuda dos óculos descodificadores de Roddy Piper. Puro exemplo daquilo a que os americanos apelidam de "Hollywood Hokum" (bimbalhice de Hollywood?), este filme de Natal encaixa tão bem umas nas outras as peças do seu argumento que eu, ao cabo de vinte minutos, já me tinha tornado um crente na absurda premissa que dá corpo à obra de George Seaton. Filmes deste calibre familiar precisam é de competentes funcionários desprovidos de robusto ego atrás da câmara, para que actores (todos bons, Edmund Gween superlativo) e estória (simples e constrastante como a de um jornalista desportivo) se destaquem para deleite do espectador adormecido, tão adormecido que só muito tempo, três minutos, após ter visionado "Miracle..." é que perceberá que acabou de ver não um bondoso panegírico ás virtudes da fé e da imaginação, mas sim a um brilhante tratado sobre cinismo calculista revestido de bonomia natalícia. Ou então é o dito que se encontra apenas no meu turvo olhar, e o projecto foi construído e acarinhado com a mais pura e nobre das intenções humanistas. OK. Dêem-me mais disto, eu compro. Com Maureen O'Hara (27 anos) e Natalie Wood (9 anos).

gelado #171

Ainda sobre Robert Mulligan. Dele apenas vi um filme, precisamente o último, The Man in the Moon, e que marcou a estreia da Reese Whitherspoon. Visto há muito ano, pouco ficou na memória, a não ser um momento: quando a irmã de Reese sabe que o namorado morreu, vemo-la a subir devagar umas escadas, e a prostrar-se de seguida contra uma parede. Robert Mulligan, para mim, significará sempre uma adolescente a chorar encostada a uma parede.

21/12/2008

gelado #170


A informação expelida durante as quase três horas de Zodiac daria para preencher duas Torres do Tombo e meia estante do cardeal Pacheco. Não deixa de ser significativo que, no único momento do passado Fincheriano, exista uma brincadeirinha com a sobreposição de palavras movediças num travelling, caracteres que se sucedem uns aos outros sem ligação imediata e compreensível. Paradoxal (e não é, mas a palavra do dia de hoje é paradoxal) que num filme onde tanto se fala e em que o verbo predomina sobre a imagem apenas se obtenha como resultado...uma imagem, numa das melhores trocas de olhares do recente cinema americano. Um filme actualíssimo, nesta era da Sociedade do (Des)Conhecimento, onde por cada coisa nova guardada se perdem logo duas. Revisto em Dvd.

gelado #169

Os melhores de 1986.

gelado #168

1- (...). His latest inspiration—a film called Singularidades de uma Rapariga Loura ... and your guess is as good as mine how to translate that— (...).

2- Coincidências: ainda no dia anterior a este post, se falava, na tasca habitual, da obra em questão. Qualquer coisa como ter visto primeiro filmes underground argentinos, islandeses, ou experimentalismos nova-iorquinos e só muito mais tarde (há menos de um mês) se verem preciosidades clássicas. É um filme do caralho, e tenciono desenvolver um pouco mais esta sucinta apreciação crítica ao filme de Wilder.

20/12/2008

gelado #167


Por aqui persiste-se nos caminhos cinematográficos da Checoslováquia de antanho, desta vez com um autor bem mais prosaico do que Chytilová: Milos Forman. Em comum com a senhora há a rebelião contra as instituições e o carinho pela transgressão, que em Milos tanto já deu para uns suculentos Larry Flint e Man On The Moon como para uns ridículos pedregulhos à la Hair e Goya (Amadeus está a meio caminho, e nunca vi aquele com o Nicholson). Fireman's Ball é uma deliciosa sátira à burocracia de betão dos camaradas, utilizando-se o microcosmos da preparação e realização de um baile de bombeiros com o objectivo de desacralizar a palhaçada e o absurdo do poder, onde frequentes contratempos vão arrasando a conta-gotas a "meticulosa" organização com...dos bombeiros. O patusco e o picaresco nada querem com a caricatura grosseira, e o aproveitamento de actores amadores, alguns dos quais eles próprios soldados da paz, transmitem um forte sentido de verisimilitude e vertente documental às peripécias da narrativa. Para não variar, The Fireman's Ball não foi visto com bons olhos pelos camaradas, que obrigaram Forman a alimentar-se exclusivamente a uma côdea de pão por dia durante dois meses; farto de côdea, emigraria pouco depois para Hollywood, onde ainda hoje ao pequeno-almoço ingere salmão fumado.

gelado #166


A personagem de 2008 mais recomendável para se fechar durante um mês e vinte e duas horas numa cave bolorenta, sem ventilação, sem luz, e generosamente povoada de infiltrações aquáticas.

gelado #165

OS DEZ MELHORES FILMES DE 1968

1- PLAYTIME, Jacques Tati
2- UN SOIR...UN TRAIN..., André Delvaux
3- THE BIG MOUTH, Jerry Lewis

JCM, in O Tempo e o Modo, Janeiro de 1969.

17/12/2008

gelado #164


Teria o maior prazer em escrever quaisquer palavras significativas sobre Ovoce stromu rajských jíme, aka The Fruit of Paradis, de Vera Chytilová, se por acaso três pequenos pormenores não se entrelaçassem uns nos outros, a saber, por ordem numérica: 1) eu estar cheio de sono e mesmo assim não conseguir dormir, o que me deixa deveras frustrado, e os homens do lixo acabam de fazer uma zucrineira ali em baixo, ali sendo uma estrada; 2) eu estar com uma geral má vontade contra o leitor, que enquanto neste momento empasta o seu corpo contra as calorias do parceiro, eu estou ás cinco da manhã a tentar encontrar as letras no teclado que formem palavras compreensivas e que me ajudem a elaborar a mais modorrenta e preguiçosa análise de um filme checoslovaco de 1970; isto, sim, é amor ao cinema, ou então quer dizer uma outra coisa da qual eu nem quero sentir a mais leve sombra; 3) eu não ter percebido (quase) a ponta de um corno fisgado do filme de Vera. Tal não seria muito preocupante, se antes de o ver não tivesse lido uma quantidade apreciável de artigos sobre o mesmo, onde fui introduzido ao bizarro mundo libertário, experimental, iconoclasta e anti-establishment (seja ele cinematográfico ou social) da dona Vera. Benção para a sua coragem, por ter realizado uma obra que levou o governo-fantoche dos camaradas checoslovacos da altura a banirem a cineasta de qualquer actividade (a propósito, leiam isto: tenebroso), mas essa coragem e força das convicções deveriam vir acompanhadas de um aviso no genérico: a consumir em conjunto com substâncias psicotr
(estou a fumar. já volto)
ópricas. A história em meia dúzia de palavras: Adão, Eva, Jardim do Eden, o Diabo, a tentação. E um esforço titânico de Chytilová em tornar a mais antiga fábula do mundo numa granada contra as convenções de uma real sociedade castradora e beata, o seu regime. Personagens anti-naturalistas, ausência da almofadinha psicológica, psicadelismo animado, sobreposições sobre sobreposições de cor, uma montagem feita de disrupções que tiram a papinha amassada da boquinha alarve do espectador, isto é, da minha. Isto no papel ou no no monitor parece uma óptima ideia (e os primeiros dez minutos até são magníficos, actores dissolvidos em abundante cor e música luminosa), e é aqui que surge a velha máxima: não interessa o que se filma, mas como. Peço desculpa, dona Vera, que ainda está viva, por não ter aderido emocionalmente, nem cerebralmente, nem simpaticamente com esta que para alguns é uma das obras-primas do cinema de leste que despontou nos idos de sessenta, setenta. Não há nada a fazer, o que é uma tremenda mentira, pois sempre a posso rever, já apetrechado dos necessários condimentos. Vá trabalhar, leitor.

gelado #163

Chromatics, Night Drive
Glass Candy, B/E/A/T/B/O/X
Why?, Alopecia
Beach House, Devotion
Evangelicals, The Evening Descends
Cut Copy, In Ghost Colours
MGMT, Oracular Spectacular
Ruby Suns, Sea Lion
Ricardo Villalobos, Vasco
These New Puritans, Beat Pyramid
Lindstrom, Where You Go I Go Too
Tv On The Radio, Dear Science
Hercules and Love Affair, Hercules and Love Affair
Mark Kozelek/Sun Kill Moon, April
Fuck Bottons, Street Horrsing
M83, Saturdays=Youth
Jucifer, L' Autrichienne
Kelley Polar, I Need You To Hold On While The Sky Is Falling
Atlas Sound, Led The Blind Lead Those Who Can See but Cannot Feel
Britney Spears, Circus

Vinte disquinhos de 2008, todos, sem excepção, devidamente sacados da net.

13/12/2008

gelado #162


It's a hard world for little things.

Por sinal de profundo respeito pelo filme e em particular pela sequência a que esse fotograma alude, o mínimo que posso fazer é escrever este post de joelhos, posição em que não me encontro desde aquela vez em que para me possibilitar passar para o 8º ano o professor de Matemática pediu com elegância que eu...Bom, encosto para o lado este lixo nojento e perverso que faria desfalecer o reverendo Harry Powell, servo do Senhor que hoje em dia teria uma enorme trabalheira para purificar este mundo repleto de curly hairs e Perfume-smelling things, mini saias, tops decotados, bikinis reduzidos, e demais demonstracções de desagravo ao Senhor, uma autêntica pouca vergonha. Agora que me ajoelhei, já posso escrever desconfortavelmente sobre etéreos e expressionistas planos de sapos, tartarugas, coelhos, teias de aranha e plantas ao vento, a natureza na sua plácida e bela indiferença para com a perseguição eterna do Mal ao Bem. Onde é que Charles Laughton (e Stanley Courtez) tinha a cabeça para, em plena época clássica, ter tido a ousadia de suspender encantadoramente a progressão dramática? E o assombro infantil daquele Pretty Fly é coisa para se esquecer lá para o ano 3456, altura em que os meus ossos serão desenterrados para servirem de carne para canhão a frutuosas experiências cientificas, mormente o de saber porque é que os humanos naquela altura, ou seja, actualmente, ainda possuíam ossos. Sim, é difícil escapar aos clichés de bonitos adjectivos quando se fala ou escreve sobre a River Boat Scene, e eu tou a experienciar dificuldades em tecer um qualquer conjunto de palavras que escape ao lugar-comum, e não creio que isto tenha apenas a ver com o facto de estar de joelhos. Parece que se confirma que é muito mais difícil discorrer sobre o Belo do que sobre o Feio. Assumo as minhas insuficiências de análise a esta obra-prima no interior de outra obra-prima, e termino por aqui, antes que comece a chover ainda mais no molhado. Rest, my little one, rest...

gelado #161

10/12/2008

gelado #160


Duzentos e trinta e nove dólares e noventa e oito cêntimos.

Bom, está na hora não de roubar um banco, mas de fundar um.

gelado #159

Há anos, viu dois filmes de Manoel de Oliveira e agora assistiu a Alice (Marco Martins, 2005), Call Girl (António-Pedro Vasconselos, 2007), Juventude em Marcha (Pedro Costa, 2006) e Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes, 2008). Achou que o realizador e argumentista de Call Girl deviam ter escolhido o ponto de vista único da call girl e esquecido os outros quatro (e preconizou que o filme em versão americana teria Angelina Jolie como protagonista) e nos restantes encontrou desejo de aventura e esforço minimalista, mas... "não são muito hábeis". "Se se quer usar uma técnica minimal, tem de haver a certeza de que há um conteúdo tremendo, como no Brokeback Mountain" (ou O Amor é um Lugar Estranho, Morrer em Las Vegas, Confissões de Schmidt, enuncia) e só o encontrou em Alice.
"Como argumentistas, temos uma obrigação para com o público. Pedimos-lhe um grande bocado da sua vida - três horas. É muito, posso jogar uma partida de golfe em três horas. Nesse convite há uma promessa de recompensa. Dar-lhe-ei algo que não tinha antes, fazê-lo pensar, chorar, rir. Vou enriquecer a sua humanidade". Hum.

Sem desprimor para o Alice ( os filtros, ) ), um oásis de qualidade na verdadeira câmara dos horrores que é o mainstream português, gostava de perceber como é que o Sr. Mckee consegue dizer essas suas últimas afirmações como se para tal catadupa de emoções acontecer tivesse necessariamente ( e obrigatoriamente) de existir apenas um argumento de cariz clássico, numa relação causa-efeito indesmentível ou inevitável. É a velha lenga-lenga dos senhores respeitáveis e dos cânones, que parecem desejar a existência de uma verdade universal alheia à vontade de meia dúzia de gatos pingados que, pobrezinhos, até pensam, choram e riem com histórias onde não há psicologia e coiso, aquela cena do enredo. 550 euros por cabeça.

gelado #158


Voza celência que não se apoquente. Voza celência só tem de esperar por um jogo em que aos sessenta minutos o Inter esteja a jogar contra sete unidades, para assim Voza celência se levantar do banco, entrar no relvado, e finalmente ter espaço e tempo para construir os inúteis e apalhaçados números de malabarismo "futebolístico" que Voza celência tanto preza, para gáudio dos Tavares líricos e de outros românticos da bola. Paciência, celência, paciência.

08/12/2008

gelado#157


Em 1995, para comemorar os cem anos da primeira exibição pública cinematográfica, uma série de produtoras (Canal +, entre outras) e instituições (Museu Cinematográfico de Lyon, entre outras) convidou diversos cineastas de todo o mundo para um curioso desafio: realizarem, cada um deles, um filme de cinquenta e dois segundos, sem som sincronizado e com o máximo de três takes, tudo através da caixa dos Lumière. Dream Team de Lumière et compagnie constituído por: Kiarostami, Lynch, Rivette, Wenders, Haneke, Chahine, Spike Lee, Idrissa Ouedraogo, Konchalovsky, John Boorman, Zhang Yimou, Angelopoulos, Costa-Gavras, Raymond Depardon, Arthur Penn, Kiju Yoshida. Num gesto de bondade aos pobres, os mentores do projecto também possibilitaram ao homem comum a concretização da sua façanha, e vai daí convidaram pessoas como Greenaway, Ivory e o atrelado Marchant (e vice-versa), Hugh Hudson, Klapisch, ou Lasse Hallstrom para encher o barco. Para além dos filmes, também se colocavam aos cineastas e ás outras pessoas as seguintes questões: Porque filma? Acha que o cinema é mortal? Algumas respostas são interessantes, outras de mera circunstância e outras ainda que não vão a lado nenhum, e só uma rebenta a escala. Quanto aos filmes, pode-se escrever que seguem a tendência das respostas, com resultados bem variáveis. Do decrescente para o crescente: Greenaway constrói uma abominável "instalação artística", "arte" com a memória do Holocausto e um nu. Um nojo. O de Abbas também não vai a lado nenhum, cinquenta e dois segundos da voz de Isabelle Huppert e um ovo estrelado (com bom aspecto, pelo menos). Spike Lee aproveitou para filmar em grande plano a sua filha a tentar dizer "dádá"; lindíssimo. O de Penn teve o mérito de me fazer reparar numa fenda na parede que eu pensava já estar consertada; há uma quantidade apreciável de episódios decorativos (Ivory, Angelopoulos, Gavras, Klapisch, Depardon, etc) e outra de jogos de espelhos cinematográficos (Lelouch, Liv Ullmann, Nadine Trintignant, Youssef Chahine, Wenders), que embora agradáveis parecem apenas comprazer-se no impulso lúdico. Melhores são os de Haneke, captação das notícias de um telejornal numa televisão austríaca (este homem vê zeitgeist até num papel higiénico), o burlesco de Yimou e do romeno Pintilie, a impossibilidade do cinema do japonês Yoshida, ou a recriação- na mesma estação e com o mesmo ângulo- do famoso Arrivée d' un train à La Ciotat por parte de Patrice Leconte (mais vale imitar uma boa ideia do que ter uma e má). Para o fim, as três pepitas: Idrissa Ouedraogo, do Burkina Faso, Andrei Konchalovsky (sim, o do Tango e Cash) e o de Lynch. O primeiro é uma imparável barrigada de riso, estando a comédia mais na rodagem caótica do que propriamente na acção dramática, esta já de si absurda; o do russo é um espantoso traveling num abismo montanhoso em direcção aos vermes da natureza; e finalmente, o de Lynch, é Lynch. Em menos de um minuto há um cadáver e dois polícias, uma salinha de estar saída directamente dos anos cinquenta, uma sessão de sado-masoquismo com extraterrestres e uma mulher no interior de uma bola gigante com água, há chamas, há explosões, há novamente os polícias: dêem-lhe cinquenta segundos e ele constrói logo um mundo aluado. Como as crianças. Não foi suficiente para esquecer o da pessoa Greenaway, mas reequilibrou as contas neste catálogo desequilibradissimo elevado ao cubo.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.



06/12/2008

gelado #156


Stan Brakhage foi um radiografista de praticamente toda a actividade acima e abaixo do solo, expressa em quase quatro centenas de filmes , que embora não muito expressa, constituíram influência de relevo em alguma da linguagem do actual mainstream, desde a montagem corta-e-cola (o genérico do Se7en é puro e duro Brakhage) até uma série de outras coisas que o meu advogado não me aconselha a referir. Em 1958, com apenas vinte e cinco anos, Stan decidiu enviar noções esclerosadas como pudor, vergonha e decência para debaixo da almofada e tratou de filmar ( a cor) um acto único, aliás, o primeiro acto da existência humana, CEO'S incluídos: o nascimento da sua filha, na sua própria casa. Window Water Baby Moving é um título literal, um resumo de uma série de planos retalhados e entrecortados de uma janela banhada pela luz solar+planos de água da banheira+planos de um bebé a nascer, em todo o seu esplendor e clareza possíveis, a câmara praticamente enfiada num sítio que deixaria César das Neves e também a minha avó à beira da apoplexia. Com a inteligência que Deus Nosso Senhor lhe providenciou, o cineasta eliminou qualquer chispa de som, tornando esta curta-metragem menos visceral do que embasbacadamente hipnótica. Um óptimo filme, que também poderá servir para preparar qualquer pai demasiado sensível e medricas para o parto da sua mulher (ou homem, que eu já não digo mais nada).

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #155

1) Estas breves declarações de M. Night Shyamalan relevam mais do sobrenatural do que toda a sua obra junta. Apesar de tudo, Deus te ouça, meu filho.

2) Too many things to too many people: ou o fim(?) do filme de culto.

3) Esqueça as férias nas Granadas, na República Dominicana ou o 98º fim-de-semana em Paris: estoure o seu dinheiro em apenas dez horas, numa visita guiada aos décors de Vertigo.

4) Eu não tenho muito que fazer nesta vida. Por isso, para ocupar as longas horas de ócio e combater a venérea preguiça, decidi arranjar uma missão de alto risco: contar, a partir de agora mesmo e até ao próximo dia 25, as referências a It's a Wonderful Life na blogo-isfeira portuguesa.

5) Marta Figueira, de 27 anos, acaba de dar dois euros por dois pares de cuecas de renda preta. Vive no Cacém, é solteira e empregada numa loja de roupa do Colombo. Veste uma camisola de lã e uma gabardina branca que não foram, seguramente, compradas aqui. "É verdade. Compro a roupa exterior no Colombo, mas a interior venho ao mercado. "Sabe"- diz Marta- é porque temos de parecer ricos, mas, no íntimo, somos pobres". Público, 30/11.

Sobre isto, já estava alinhavada uma graçola mais ou mais infeliz (a minha experiência de quase três anos de blo-isfeira portuguesa já deu para notar que um dos segredos para uma boa socialização nética e para o sucesso de um blogo é, de quando em quando, tecer considerações auto-depreciativas e banhar-se vaidosamente na auto-comiseração. Acrescente-se umas referências a cantautores de guitarra acústica, voz sofrida e dor de corno eterna, e uns aforismos dia-sim-dia-não e o prestígio está garantido. Claro que para se chegar a este nível de flagelação interior é preciso um árduo trabalho, pois não é mestre Mexia, o Subdirector, quem quer, mas quem pode. ) quando, pela primeira vez nos últimos quatro meses, pôs-me a reflectir (lá está), e perguntei-me: Mas em que pedestal vivo eu para julgar assim as pessoas, ainda por cima não as conhecendo de lado nenhum ? Exacto. Então porque decidi transteclar aquelas frases de cima? Basicamente, porque sou um inutilista. E para escrever "prestígio". Alguém quer entrar no meu filme?

03/12/2008

gelado #154

Young Mr. Lincoln

Lisandro Alonso


Stan Brakhage


O meu filme e os meus realizadores de 2008. Declaro aberta a feira de vaidades anual.

gelado #153

Conversa tu-cá-tu-lá entre Spike Lee e Martin Scor-sese!. my man.

gelado #152

Mais uma para a categoria Bonificiana de " as mais dolorosas canções que a humanidade conhece".

ps: O Leone autorizou?

gelado #151

1) À boca cheia, psicólogos, sociólogos e restante maralhal assinalam o advento de novos tempos, tempos em que o afecto, o companheirismo e a compreensão pelo outro se dilui nos compromissos e pressões profissionais. Pois eu protesto perante este pessimismo, e escrevo, igualmente à boca cheia, que este bolo-rei é certamente um dos melhores que comi nos últimos anos, eu que nem aprecio por aí além este doce natalício, talvez porque em pequeno eu tinha receio do brinde me vir parar à garganta e assim morrer sufocado, mas ainda bem que tiraram essa cena do brinde, que isto são novos tempos, tempos de saúde e de purificação, mas escrevia eu, protesto diante da visão de uma humanidade fria e Metropoliana, pois escrevo que de há uns anos para cá, mais concretamente de há uns meses para cá, tenho assistido, com cada vez maior frequência, a um notável sinal de sensibilidade e carinho por parte do Ser Humano; evidentemente, estou-me a referir ao zelo e à extremosa atenção com que o Homem e a Mulher lusitana limpam o visor dos seus telemóveis. Alguém que se dedique a olhar para esses momentos de ternura e sociabilidade para com um ente querido, ganhará proveitosas e ricas tonalidades morais. Já não se via nada assim desde o amor que se colocava naqueles bonecos electrónicos japoneses que apareceram em meados de noventa, e que pediam comida, e que cagavam e choravam. Os meus olhos marejam.

2) Só conheço uma vantagem do frio: a cerveja não precisa de ir para o frigorífico.

01/12/2008

gelado #150


Quando um filme coloca má disposição no meu estômago ou na minha omoplata direita, isso significa que o apreciei muito. Da primeira vez que vi o Se7en, apoderou-se uma ligeira dor na minha barriga que, infelizmente, jamais voltou a aparecer em futuras visões da obra de Fincher. Agora, causarem-me distúrbios visuais e quase turvarem a minha já de si periclitante vista é que não aceito de modo algum e de jeito nenhum. Waking Life, do versátil Richard Linklater, responsável por uma inesquecível double-bill pela madrugada adentro, conseguiu a proeza de me obrigar a um constante pára-arranca, pára-arranca no leitor de dvd, inúmeras pausas para descansar o olhar desgastado por uma tão grande afronta à sua sensibilidade. A técnica visual do Rotoscópio (mais tarde repetida por Linklater em A Scanner Darkly) conjugada com uma catadupa de diálogos profundos e repletos de curiosidade antropológica levaram-me para caminhos de tortura não muito distantes dos efectuados em Malcolm McDowell num certo filme famoso. É que imagem+texto, em vez de criarem um qualquer sentido harmónico, mais parece que se anulam mutuamente, cada uma das componentes primárias de um filme a não dar espaço para a outra respirar. É óbvio que eu só não me senti sufocado nos momentos em que Richard enviou a gonorreia textual para o contentor e ficou só com as imagens, pois a animação, com as suas distorções visuais e os seus variados gimmicks poéticos assemelham-se a martelos rolantes sobre as palavras, quando não são estas últimas, por vezes autênticas enxurradas sem fim à vista, que desbaratam qualquer possibilidade de se prestar atenção ao que supostamente fará a originalidade deste filme. Um objecto cinematográfico a que voltarei um dia, quando tiver dinheiro para o aumento das dioptrias.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #149


No início do mês de todos os sonhos e pesadelos, um cidadão português contempla um certo bem estar. A carteira está demasiado leve. Ou então é Borzage, em 1931.

gelado #148

Porque é que filma?













A resposta a essa pergunta só pode ser um largo silêncio.

Jacques Rivette, em Lumière et compagnie.

gelado #147




A gloriosa jornada europeia não poderia deixar de ficar registada.

26/11/2008

gelado #146


Entretanto

Parece que os badochas assados ficaram chocados com a ausência de filmes ingleses no palmarés. E dão como exemplo desta ignomínia os brutais esquecimentos de David Lean, Peter Greenaway e Ken Loach. E porque não Mike Leigh? Lindsay Anderson? Peter Watkins? Valha a verdade, eu também me sinto enxovalhado, a dois níveis:

1) Os especialistas franceses não se terem lembrado de um obscuro nome do cinema mundial, autor de imensos filmes underground e muito pouco reconhecido a nível global: Michael Powell.

2) Os próprios badochas não terem mencionado na sua listinha indignatória o nome do Criador acima citado. É que Powell está para Lean como a Maria de Lurdes Modesto está para esses paneleirozitos da espuma e do chic-chic.

gelado #145

gelado #144

1) Humor labrego, vindo directamente de quem nunca parece ter saído de um tempo (finais dos anos 80, inícios de 90- Streetfighter, gravar com dois vídeos e para isso é preciso ter cabo) e de um espaço (Coimbra? Algures lá perto), repleto de quebras de ritmo anti-audiovisuais que, voluntária ou involuntariamente concretizados, fariam a delícia de Tony Kaufman, e com a devida cereja no topo do bolo: não há ganchos políticos para ninguém. Alguma brisa neste humor lusitano cada vez mais preso à "intervenção" e ao diabo que os carregue a todos.

2) Por falar em marasmo político: numa altura em que a luta de ideologias parece estar a recrudescer, gostaria também de dar a minha opinião civil sobre esta questão: acho que os decotes e as mini-saias das moças das madrugadas da SIC são mais apelativas do que as das suas colegas da TVI.

25/11/2008

gelado #143

Put your hand in my heart, Allen John.

Na Grandiosa História do Cinema e também dos filmes, The River deveria ocupar um lugar cimeiro, possivelmente entre o 12º e o 54º; na não menos rica Grandiosa História do Cinema de Tusa, então, o primeiro lugar não será escandaloso de lhe atribuir, e sim, estou a incluir o Saló nesta imaginária contagem. Toda a cena a que esse fotograma pertence é um primor de sensual erotismo, tão boa que mesmo em pleno Inverno recomenda-se a sua visão acompanhada de um balde cheio de água gelada bem ao lado do pervertido leitor, e já que estou numa de frutuosos conselhos, também lhe digo, cara leitora semi-nua, que estes breve minutos vão fazer mais por si e pela sua triste relação com o seu amante/esposo/chulo do que todas as dicas hottie perpetradas pela merda da Happy. Frank Borzage, um homem romântico, realizou uma história de iniciação sexual e amorosa envolta em terreno panteísta, um decor de beleza irreal onde a crueldade (feminina, neste caso) e a repressão de sentimentos são uma resposta perfeita às mui lindas paisagens (todas de estúdio). Um corvo serve como espantoso símbolo de vigia, com Borzage a incidir sobre ele alguns planos que mais parecem saídos da escola dos surrealistas. Aliás, não parece existir um único plano desaproveitado, nenhum que não encerre em si toda uma importância singular, embora importante para o todo (não sei muito bem como explicar isto, mas parece-me que assim está bem, embora também possa estar mal. Ou assim-assim. Quê? Já vou.) desta completa obra-prima mesmo que incompleta e semi-destruída, pois o início, uma parte do meio e o fim estão perdidos algures, substituídos por fotogramas e inter-títulos que elucidam a narrativa, um procedimento explicativo que ainda consegue encharcar de maior lirismo e mistério uma obra, sem dúvida, poética, sem fazer poesiazinha de cosmética. Rosseau e Fiodor chorariam, disso não tenho eu a mais pequena certeza.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #142


A

23/11/2008

gelado #140


Perdido entre esbatidas tonalidades verde-tropa, entre rigidez gestual e retórica, entre a frieza maquinal de uma sociedade sem nome, um momento sublime de calor: a preparação de uma refeição canina. Nada mais do que isso e tudo o mais do que isso, e a reconfirmação de que basta colocarem uns planos de pormenor de comida e mãos na comida num filme para eu lhe perdoar todas as falibilidades, indigências e demais Sapunarices. O realizador japonês Mamoru Oshii, conhecido para lá dos Himalaias por Ghost in the Shell, filme de culto para a era da nerdolândia, abandonou a animação mas não o fascínio pelas intersecções invisíveis entre realidade e virtualidade, até um tal ponto que no fim de Avalon o espectador vê-se obrigado a repetir a mesma pergunta efectuada no último plano de eXistenZ. Até lá, há a registar a coerência de um tom, sempre na corda bomba entre o sonâmbulo e o misticismo new wave, puxado pela alavanca da música etérea de Kenji Kawai. Não irrita nem deslumbra, volta a pisar terreno conhecido, a procura de Humanidade num mundo hostil e repleto de zombies metropolianos, mas chega e sobra para valer cerca de 104,4 Matrixs, como a minha insuspeita balança acaba de confirmar. E tem uns belíssimos lombos de porco.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

21/11/2008

gelado #139

Estoril Film Festival. Liverpool, de Lisandro Alonso. Sem pontuação.

Eu sento-me e o Miguel Gomes aparece e aparece o João Pedro Rodrigues e o Botelho e um gajo dos Morangos com Açucar e mais uma actriz conhecida da qual eu não me lembro do nome e que no final apesar de ser portuguesa fez uma pergunta em espanhol e voltando ao princípio o Miguel Gomes e o Lisandro Alonso vão lá para baixo e o Gomes apresenta o filme e diz que o Lisandro é um dos maiores realizadores do mundo e diz que o filme é bom e o Alonso pega no micro e diz que o Miguel Gomes também é um dos maiores realizadores do mundo assim como o João Pedro Rodrigues que estará algures na plateia e sorriem todos e as luzes apagam-se e começa um genérico em letras vermelhas e rockalhada agreste e eu penso já vi isto em qualquer lado e vou vendo o filme e penso que o Lisandro abandonou as filmagens e meteu por lá o realizador automático programado com a tarefa fazer exactamente a mesma coisa do que nos três primeiros e extraodinários sei eu filmes mas desta vez em pior e o filme acaba e o público bate palmas eu não e as luzes acendem-se e volta o Lisandro barbudo e crístico lá para baixo acompanhado por imagine-se quem o Tendinha e só há três perguntas a primeira de uma mulher chilena que diz que o filme basicamente não vale um chavo e o Alonso responde e diz que a opinião dela é válida e o Botelho senta-se a dois lugares de mim e resmunga alarvidades e eu é que sou um conas senão perguntava-lhe umas certas coisas mais íntimas e uma gaja toda boa vai filmando o Lisandro e por arrasto o Tendinha e o Lisandro diz que não tem jeito para filmes porno e que se lixe a Disneylandia e vai-se embora com cara de poucos amigos e o Botelho dá uma palmadinha nas costas do Tendinha e ai que alívio ar livre e tabaco na boca e o Botelho agora volto atrás a dizer entre dentes este festival é um nojo.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

17/11/2008

gelado #138


Na última sequência de The Cool World, alguém muito importante no filme é colocado dentro de um carro da polícia, mas Shirley Clarke parece estar mais interessada em captar a "respiração" urbana e as relações sociais entre os habitantes do Harlem do que em seguir o veículo da autoridade. Fecha-se o arco numa obra que começa como documental e termina como tal, com o seu núcleo sempre numa jigajoga algumas vezes indistinguível entre os dois géneros, em que uma elegia por um amigo morto é acompanhada por "planos consecutivos" (como há dias ouvi num bar) da rotinazinha do pessoal daquela zona de Nova Iorque. Filme político, sim senhor, socialmente activo, sim senhor, mas onde a ladainha do "ai não temos hipóteses porque vivemos em guetos" não é, de maneira nenhuma, servida apologeticamente contra o criminoso branco, até porque o determinismo é desmentido por outras personagens de The Cool World. Na mesma realidade, há quem escolha mais alguma cousa do que passar o tempo inteiro a desesperar por cinquenta dólares para uma pistola. Frederick Wiseman produziu esta obra filmada brutalmente ( jump cuts, zooms, imagens fragmentadas), bem de acordo com o objecto de filmagem. À atenção de pessoas inteligentes e também de membros do PNR.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #137

You see, according to Cocteau's plan I'm the enemy, 'cause I like to think; I like to read. I'm into freedom of speech and freedom of choice. I'm the kind of guy likes to sit in a greasy spoon and wonder - "Gee, should I have the T-bone steak or the jumbo rack of barbecued ribs with the side order of gravy fries?" I WANT high cholesterol. I wanna eat bacon and butter and BUCKETS of cheese, okay? I want to smoke a Cuban cigar the size of Cincinnati in the non-smoking section. I want to run through the streets naked with green Jell-o all over my body reading Playboy magazine. Why? Because I suddenly might feel the need to, okay, pal? I've SEEN the future. Do you know what it is? It's a 47-year-old virgin sitting around in his beige pajamas, drinking a banana-broccoli shake, singing "I'm an Oscar Meyer Wiener".

Demolidor Denis Leary, em Demolition Man. Aos cuidados da bomb...nutricionista Isabel do Carmo e de toda a pandilha da "saúde".

15/11/2008

gelado #136


É legítimo detestar um filme como Hundstage, do austríaco Ulrich Seidl: auto-indulgente, prazer no sofrimento alheio, visão maniqueísta da realidade, sensacionalista, you name it; e eu exulto, e escrevo que qualquer obra que satisfaça o meu voyeurismo desenfreado é digna de uma dezena de polegares para cima. Seidl, que parece confirmar a ideia de Michael Haneke de que o seu país sofre de qualquer malaise colectiva, filma um grupo de pessoas, quase todas de classe média/alta, emaranhado num belíssimo catálogo de horrores, desde velas enfiadas no cu enquanto se entoa La Cucaracha até a uma depilação da pintelheira vaginal em grande plano, uma tragédia moral para os leitores mais tradicionalistas do Público. O realizador mostra tudo aquilo que fica de fora de novelas e da maioria do cinema, isto é, os momentos mais embaraçosos e mais secretos da vida de cada pessoa, a frio e sem anestesia prévia, fazendo-os durar o tempo suficiente até se tornarem desconfortáveis, sem julgamentos moralistas a escalarem a superfície. As cores quentes da fotografia realçam ainda mais as rugas, o suor e, porque não, a fealdade física dos protagonistas, quase todos parecendo mais velhos do que que a sua idade aparenta. O décor suburbano parece retirado de Edward Scissorhands, mas é num gajo como Todd Solondz (nem por acaso: a Paris Hilton vai entrar no seu próximo filme) que Hundstage mais faz lembrar, embora em doses ainda mais cruéis. Há por lá um strip-tease que pede meças a qualquer Eunice Munõz. Um espanto.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

12/11/2008

gelado #135


A Screwball Comedy nunca foi a minha chávena de chá; a primeira visão de His Girl Friday traumatizou-me tanto com as suas metralhadas retóricas que eu tive tentado a enviar um e-mail à Laura Mulvey ( em 1998 eu não conhecia a Laura nem possuía Internet, mas eu sou um fiel depositário da lenda Fordiana) para uma ajuda e iniciação ao cinematográfico mundo da guerra dos sexos, ou o caralho ca foda (gratuito como eu gosto). Foram precisos mais alguns anos para eu lentamente me começar a reconciliar com o "género", tudo graças às boas mãos de Costa e seus padrinhos Straub/Huillet. É preciso escrever, com toda a clareza, que eu sinto-me muito mais na presença de um filme quando estou a ver uma screwball do que quando Eisenstein ou Vertov me estão a chamuscar os olhos com os seus blocos de granito a embaterem uns nos outros; segundo cálculos esfectuados há menos de vinte segundos, há outra pessoa residente nas Ilhas Antígua que sente o mesmo. Me and My Gal, do grande Raoul Walsh, vai distribuindo Mcguffins atrás de Mcguffins (gangsters, breves pinceladas sobre a crise pós-Grande Depressão, Lei Seca, tudo muito gentil) para criar o contexto certo para o que verdadeiramente importa: a relação abrasadora e cómica entre Spencer Tracy e Marion pastilha elástica Burns, a estourar de piscadelhas de olho e de tácticas de guerra avanço/recuo, avanço/recuo. O costume. Rola o filme e eu alheado, eu alheado e rola o filme. Há uma notável festa de noivado, em registo quase documental, com os actores a olharem para a câmara, talvez indiciando outras latitudes no interior do filme, mas é apenas um momento alienígena na supremacia da técnica invisível. Segue a festa sem o festim das surpresas. Meu rico Walsh de High Sierra e White Heat. Gente respeitável como Manny Farber e Rosenbaum consideram esta a obra-prima de Raoul. É natural: eu uma vez também me atirei, com toda a força, para uma cama, ali na Conforama do Cascais Shopping, e isto já não entra no campo da mitologia.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

gelado #134


Sporting-Leixões: após o árbitro (barbudo) não ter, escandalosamente, sancionado logo aos três minutos de jogo o defesa-esquerdo da equipa de Matosinhos com um cartão vermelho por este ter soprado na cara de João Moutinho, que de imediato caiu inanimado no gramado, equipa técnica, directiva e adeptos do clube leonino largaram o monóculo e a caixa de rapé para se entregarem ao dever de intimidar, com gentileza, o árbitro (barbudo). Depois de retomado, o jogo seria interrompido aos quinze minutos, quando os pupilos de José Mota ficaram reduzidos a apenas quatro unidades, contando com o próprio Mota. O clube de Alvalade vencia por seis a zero. No final do encontro, os sócios leoninos, de novo na posse dos seus utensílios de classe, regozijaram-se-se com o regresso da verdade desportiva e o fim de roubalheiras (sic) de vinte anos. Na conferência de imprensa, Paulo Bento, empunhando uma pistola na direcção dos jornalistas, afirmou que isto era apenas o princípio. Quem, a partir de agora, vier com veleidades de maltratar o Zbording na sua própria casa, fica já a saber que todo o sofrimento e tormentos numa pintura de Bosch serão meros laxantes ao pé do que lhe vamos fazer. Depois digam que eu não os avisei.

11/11/2008

gelado #133


This confusion between simple description and moral accounting, between making art and finding ultimate truth with a camera, a microphone and an editing machine, is an old story in filmmaking and criticism, but it continues to be told, again and again. At this point, I have to wonder why. The appeal of systematic rather than case-by-case exploration is obviously great, as great as the lure of enlightenment in the realm of art and outside of organised religion. However, I find it troubling to read rejections of religious and political dogma from critics who simultaneously espouse aesthetic dogma. I have a feeling that serious film criticism is afraid to hoist up the anchor of moral essentialism for fear of drifting off into the shallow waters of connoisseurship. I suppose that moral essentialism offers a guarantee of seriousness.


gelado #132

Sou capaz de viver com uma preguiça quase permanente. Tenho a qualidade de ser capaz de estar, sem fazer nada, a fumar e a beber café, a ler um livro antigo que me apetece reler. Dinis Machado.

Um verdadeiro insulto à "competitividade" e ao árduo trabalho de pessoas que, com intensas chamas de orgulho nos olhos, afirmam eu já trabalho desde os dez anos, moinante!.

PS- O "realizador" Vieira, passados cinco dias, continua foragido. Com os meus impostos não brincam mais.

10/11/2008

gelado #131


Estas pequenas câmaras, uma maravilha. Agnès Varda.

Com uma curiosidade de puta (MEC dixit) e uma câmara digital na mão (pormaior que será relevante na própria narrativa) Agnès Varda infiltrou-se docemente no mundo dos respigadores à escala francesa, sejam os urbanos com os imaculados bifes e alfaces desenterrados do lixo sejam os rurais, aproveitando estes os despojos das grandes superfícies e dos grandes senhores das terras, em forma de batatas gigantes, figos apetitosos ou uvas primorosas. Em Les Glaneurs et la glaneuse, a crítica à lei do desperdício e à sociedade do "mercado livre" está tão estampada quanto possível para quem a quiser notar, mas suficientemente esbatida na leveza com que se contam estas pequenas histórias, tenham o seu quê de trágico ou de picaresco, quando não ambas. E deliciada com o seu novo brinquedo, Agnès utiliza-o para uma outra forma de respigamento (?), filmando aqueles momentos que ou não são registados nos outros filmes ou se o são, então a sala de montagem irá dar-lhes o devido uso: lixo; à falta de mais imaginação e menos preguiça mental, poder-se-ão designar pelos originalíssimos "pequenos-nadas". Uma inesperada inter-relação com a "trama maior", nunca permitindo que o filme descaia para o mero exercício rotineiro de recolher depoimentos e respectivos comentários aos depoimentos prestados antes dos comentários sobre os depoimentos efectuados. Não só vou passar a bater palmas mentais quando vir alguém a remexer na lixeira, como provavelmente estará na hora de eu fazer o mesmo, pois nunca se sabe que costeleta ou robalo tragável poderá lá estar. E, bem, é sempre mais saudável que ver o CSI, observar uma disputa de bola entre o M. Gonzalez e o Rochemback, ou gastar o balúrdio de cinco euros para ver o novo "filme" do "realizador" Vieira (que continua a monte).

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

08/11/2008

gelado #130


Para Deus não há zero!

The Incredible Shrinking Man, que poderia não ser mais do que uma patuscada agradável, um saboroso guilty-pleasure dos trezentos, transforma-se numa reflexão filosófica e metafísica (sem tese, foda-se) sobre o lugar do Homem na sociedade, e a sua relação com a escala do mundo feita à sua medida (de grandeza). E onde também fica exposto o terror da perda de masculinidade, um complexo de inferioridade face à mulher carregado de ironia, se pensarmos que estamos em plenos anos cinquenta, época do all-american house, com as familiares regras hierárquicas bem definidas e o jardinzinho impecavelmente tratado. Os efeitos especiais evidenciam artesanato por todos os poros, mas nunca tombam para a cheapiness absoluta, até porque o que mais interessa a Jack Arnold é o enquadramento do seu herói na composição do plano. O monólogo final, com um picado significativo, é tão comovente que tive de me certificar a 100% de que não se encontrava mais ninguém por perto. Somos ' tão piquenos.

*****- Fabuloso. Ludivine Sagnier, Scott Walker e sardinha de Portimão.
****- Muito Bom. Gene Tierney e caranguejo com cerveja Sagres de um litro.
***- Bom. Rojões à minhota em dia de chuva.
**- Razoável. Fast-Food em dia sem tempo mais Zizek sóbrio.
*- Medíocre. Conversa de café entre José Manuel Fernandes e João Marcelino.
0- Fusão genético-molecular entre Comentador Vasconcelos, Rui Ramos, Sapunaru e Eduardo Madeira.

07/11/2008

gelado #129

A crítica de cinema não é gestão de economia. João Lopes, na Sic Notícias.

A propósito do novo "filme" do "realizador" Leonel Vieira.

Entretanto, reparo que um conhecido crítico de cinema do Público, e também o Jorge Mourinha, atribui nota zero ao novo "filme" do "realizador" Vieira. É tempo de estes bandidos preconceituosos dedicarem mais atenção ao mercenarismo, perdão, ás artes económicas.

Um dos piores mainstreams do mundo. O pior, talvez.

O João Lopes chegou ao delicioso ponto de dizer que o "realizador" Vieira nem sequer sabia enquadrar um plano.

Prisão com eles. E levem o Benitez e o Sapunaru.

06/11/2008

gelado #128


Existem filmes, como lugares, em que o mais aconselhável é não voltar a encontrá-los. Corre-se o risco de memórias graciosas (lindo) se diluírem em parcas desilusões (lindíssimo, já posso editar pela Oficina do Livro) no momento do reencontro. An American Werewolf in London, de John Landis, povoava até há poucos dias o meu cérebro de palavras como "medo", "terror", "Sapunaru", e "choque", fruto da sua primeira, e única visão, ter ocorrido algures numa noite de Sábado de 1986 ou 1987, época em que a coisa mais assustadora que me podia acontecer era perder um episódio do Bocas. Há um par de dias regressei ao local do BPN, do crime, e refastelei-me na total indiferença perante o que via. Excepção feita à primeira sequência, na ruralidade inglesa, onde se constrói com êxito um ambiência de opostos (gajos americanos urbanos vs paisagens fantasmagóricas e misticismos locais ingleses), o resto do filme é uma salganhada de géneros (comédia, terror, filme romântico) em que nada bate certo, não havendo nem a gravidade do horror movie nem a coragem suficiente para transformar tudo aquilo em caricatura burlesca (como fez o Jackson de Braindead). Sim, sim, e depois há a metáfora das "dores de crescimento juvenil" (numa cena que continua sem rugas, ao fim de vinte e sete anos): alguém sempre pode pegar por aí, para lhe atribuir "complexidade". Há crónicas jornaleiras e blogs neo-liberais que me assustam muito mais. E lá vão vinte anos de memórias afectivas (a sério: só preciso de fazer um qualificado broche ao editor) para o galheto.

05/11/2008

gelado #127


Há nuvens lá fora. É tempo de aclarar. Até amanhã.

04/11/2008

gelado #126


Uma puta e um padre.

Michel Piccoli abre a sua bíblia; grande plano da bíblia com formigas nas suas páginas (blasfémia alert!); raccord: grande plano de uma caixa de jóias a ser aberta. E em meia dúzia de segundos e num par de planos fica estabelecida a dualidade eterna do ser humano, entre o sagrado e o profano, a compaixão e o egoísmo, a alma e o corpo, a humildade e o Miguel Cadilhe. Um raccord que resume, de forma económica e sem paliativos, a divisão em duas partes de La Mort en ce jardin, uma em que cada um tenta obter o melhor para si na civilização, onde o cinismo dita lei (Simone Signoret, estátua para ela), e outra em que, reduzidas as máscaras quotidianas e aumentados os mais básicos instintos de sobrevivência, se constrói uma entreajuda salvadora (?) numa luxuriante floresta tropical. Charles Vardel, encostado a um tronco, tenta acender um cigarro, mas a chuva não lho permite: não há hipóteses de acessórios burgueses quando o que importa é ter comida na boca. Só numa filmografia como a de Buñuel é que La Mort en ce jardin pode passar por quase nota de rodapé.

27/10/2008

gelado #125


Eu bem a tento reprimir, mas a minha costela fascista sedenta de sangue emerge à tona algumas vezes, as suficientes para não fazer mal a uma mosca (mas não a um caranguejo, e tenciono aqui voltar ainda este ano). Ontem foi uma delas, quando vi John Rambo pegar nesse dispositivo militar do qual desconheço o nome. O que se seguiu foram dez minutos de transe em mode mata-me esses cabrões todos!, impulsionado por uma brutalidade e uma raiva (emocional, de montagem) que envia direitinho para o caixote do lixo objectos "realistas" e "chocantes" como o inenarrável Black Hawk Down. Tripas, cabeças pelos ares, um bombardeamento audiovisual de planos curtíssimos, onde se destacam aqueles, fechados, de Rambo e os sons de trovão da sua máquina, escangalhando com tudo o que lhe apareça à frente. Numa era de hiper-hiper-realismos do corpo, ainda há quem me consiga impressionar. Além disso, foi uma sequência que terminou com os bocejos da hora anterior, que me levaram a ter saudades da deliciosa panache involuntariamente burlesca da obra-prima Rambo III. Nevertheless, recomendo aos mais devotos fãs.

gelado #124

1) Nesta nossa época conturbada a todos os níveis, onde Karl Marx voltou a ser um herói, e em que eu tive de cortar a despesa com as azeitonas à mesa, cabe fazer uma pergunta essencial: porque é que na tv, sempre que se discorre sobre taxas de juro, desemprego, crédito à habitação ou crise financeira, o background visual é geralmente a Rua Augusta, e residualmente a passadeira da morte no Terreiro do Paço? Se no segundo caso há uma dimensão metafórica compreensível, no primeiro existe uma insistência numa imagem que carece de compreensão. Ou as Avenidas do Porto, Coimbra, Braga e Aliados do Lordelo não são dignas de também figurarem como suporte de assuntos degradantes? Um exemplo, entre outros, de um bafiento centralismo que teima em perdurar. Mas será que ninguém reflecte sobre isto? Tenho de ser eu? Não há cidadania suficiente neste país.

2) Uma das ideias que os defensores do negócio futebol nos tentam vender assiduamente é aquela que diz respeito a árbitros e dirigentes desportivos se tornarem invisíveis, para assim darem total primazia aos verdadeiros artistas do espectáculo, que segundo eles são os treinadores e jogadores. Aos treinadores ainda dou um desconto, pois por entre banalidades e catch frases o saldo anda sempre equilibrado. Quanto aos jogadores, pode-se escrever que há ratos de esgoto que conseguem expressar guinchos mais interessantes do que a maioria deles. É que são anos e anos a levar com "temos de levantar a cabeça", "pensar no próximo jogo", "vou trabalhar para merecer a confiança do mister", "O Benfica é o maior do mundo", " vamos dar a volta", "vamos entrar com tudo", " o adversário fez o primeiro golo na primeira vez que foi à nossa baliza", etc, etc. Como é que diminuídos mentais, cujas únicas coisas que sabem fazer é pontapear ou adornar a bola, jogar playstation e ás cartas, ver dvds contrafaccionados e pagar as mordomias das esposas, podem ser a cara de um desporto nobre? Podem, se pensarmos na imprensa desportiva. O discurso repleto de gíria futebolística, de frases repetidas até à exaustão e de perguntas eternas levou a que quem assista uma flash-interview ou uma conferência de imprensa não precise de ver outra, pois é sempre o mesmo filme a rolar através dos tempos. A primeira coisa que um extraterrestre aprenderia seria com certeza a linguagem codificada entre jornalistas desportivos e futebolistas. É um nó impossível de ser desatado, e é claro que para o florescimento do negócio e da imagem, torna-se imprescindível que nada de relevante e perigoso seja proferido nesses momentos de confrontação. "Estou aqui para ajudar a equipa".
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